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sexta-feira, 10 de abril de 2009

Acabou Chorare, Novos Baianos.


Ficha Técnica:

Acabou Chorare.

Coordenação geral: João Araújo;Produção musical – Eustáquio Sena;Gravadora: Som Livre. Estúdio: Somil
Produção gráfica e fotos: Antonio Luis (Lula);Montagem do álbum – Joel Cocchiararo.
Músicos: Pepeu (Guitarra; Violão solo e Craviola); Jorginho (bateria; bongô e Cavaquinho); Baixinho (Bateria, Bumbo e Bongô); Dadi (Baixo); Moraes Moreira (Violão base);Paulinho Boca de Cantor (Pandeiro); Baby Consuelo (Afoxé, triangulo e maracas) e Bolacha (Bongô).

Arranjos:
Moraes Moreira e Pepeu Gomes



Antes de iniciar propriamente a análise da obra, preciso nos situar no momento anterior ao seu lançamento, mas que, certamente, determinou a sua concepção.

Início dos anos 70 e o país acabara de passar pelos seus movimentos musicais mais importantes: Bossa Nova e Tropicália. Foi pouco após ao surgimento e explosão desta última "vanguarda" que se formou os Novos Baianos[1], e assim, com clara orientação tropicalista, haviam concebido e lançado Ferro na Boneca [1970], essencialmente roqueiro; o quase experimental No Fim Do Juízo [1971] e mais dois compactos [2]. Após mudarem-se para um apartamento, em Botafogo, no Rio de Janeiro, aconteceu um encontro que entraria para a história da música brasileira. Convidado pelo integrante da banda e poeta, Luiz Galvão, João Gilberto foi visitá-los; ao abrir a porta Dadi pensou que aquele homem de terno era um policial, mas felizmente era João e o violão, que para a surpresa de todos ali que eram seus fãs, reinventou a forma destes baianos ver e tocar música, principalmente, neste aspecto, Moraes Moreira e Pepeu Gomes. João não se limitou exlusivamente a aproximá-los de uma incorporação deles à bossa-nova, como também indicou que fizessem releituras, assim como ele, de sambas antigos, o que foi seguido não só neste instante mas nos outros albúns da banda.

Assim começou a história do ACABOU CHORARE, título um tanto insólito, mas explico-lhes: numa dessas visitas João contou que, no período que passara o exílio no México, sua filha, a hoje cantora Bebel Gilberto, frequentemente misturava o português com o espanhol, e certa vez, ao cair, enunciou: "Acabou Chorare, papai".
Iniciando, de fato, o albúm, a primeira música é Brasil Pandeiro, cantada com um sabor e swingue singular por Baby Consuelo, revela as preceptivas do albúm, o que fariam à partir desse instante, expressa em versos como:


“Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor
Eu fui à Penha e pedi à padroeira para me ajudar
Salve o Morro do Vintém, pendura a saia que eu quero ver
Eu quero ver o Tio Sam tocar pandeiro para o mundo sambar”

[...]

"O Tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada"



Estão aí registradas a "receita" que muitos[3] usaram para definir o grupo como uma mistura de Jimi Hendrix [que aqui poderia ser o "Tio Sam"] e "batucada" representado pelos ritmos brasileiros e também por Jacob do Bandolim[3]. Brasil Pandeiro é uma nova leitura de um samba exaltação[4], dos anos 30, composta por Assis Valente, e esta era a indicação que mencionei que João Gilberto fez para o grupo.

A segunda faixa é Preta Pretinha cantada por Moraes e escrita por Galvão, que conta no livro que escreveu sobre Os Novos Baianos, que a letra nasceu de um romance mal sucedido[5].


“A jovem combinou comigo para que eu fosse a Niterói conhecer seu pai e, na volta, ela viria morar comigo no apartamento dos Novos Baianos, em Botafogo. Pegamos a barca, conheci o pai dela, mas, na volta, ela se arrependeu e voltou para o seu namorado. À noite, escrevi a letra sob o impacto desse insucesso e, na certa, o subconsciente deu uma panorâmica em todas as minhas histórias de amor.”
Assim, veio-lhe à lembrança a figura de Socorrinho (“Só, somente só...”), uma antiga namorada de Juazeiro, que completou a inspiração para os versos de “Preta Pretinha”:

“Enquanto eu corria / assim eu ia / lhe chamar / enquanto corria a barca / em minha cabeça / não passava / só, somente só? assim vou lhe chamar? assim você vai ser / lá-já-lá-iá / lá-iá-lá-iá-lá-iá / preta, preta pretinha / (...) / abre a porta e a janela / e vem ver o sol nascer...”


Preta Pretinha, predominantemente em alguns trechos, cria uma impressão cinematrográfica, imagética ou fanepéica, segundo definiu Augusto de Campos, de Pound: "Fanepéia: Uma lance de imagens sobre a imaginação visual"[6]. Veja se não é isso que ocorre nestes trechos:


"Abre a porta e a janela. E vem ver o sol nascer" e "Enquanto eu corria. Assim eu ía lhe, chamar!Enquanto corria a barca".



O terceiro sucesso é Tinindo Trincando com outra deliciosa interpretação de Baby e também o primor criativo do aqui abrasivo Pepeu Gomes, que conseguiu expressar em frases, riffes e solo, [7] desde o começo, o que está no título da música. Foi no limiar ao tinir e trincar na guitarra. Sobretudo é notável, nesse momento, a união e completude que esses dois -Pepeu e Baby- alcançaram; o que me faz concluir, nessa música, e em outras como A Menina Dança e especialmente Brasileirinho que eles eram os parceiros musicalmente perfeitos dentro de suas características [o que me lembra o que eu disse sobre João e Astrud Gilberto no primeiro artigo que escrevi aqui].

Swing de Campo Grande exemplifica bem, com a mistura de samba, partes de chorinho, junto à percussão, o trabalho orgânico do grupo em que, seja nessa ou noutras faixas, desde Baby (Afoché-triângulo, maracas) e Paulinho Boca de Cantor (Pandeiro) todos tocam. Destaco aqui também a "banda dentro da banda", os antes chamados Os Leifs[8] e que se tornaram conhecidos, posteriormente, como A Cor do Som que tocou e foi importante para vários outros artistas também como: Gal Costa - Tigresa com eles é a versão perfeita -; Gilberto Gil, Caetano, Bethânia - tocaram para os Doces Bárbaros -; Chico Buarque - destaque para Hino de Duran. [Ainda farei a seguinte enquete: Qual foi a maior banda de apóio da história? A Cor do Som; Vitória Régia - que tocou para Tim Maia no mítico Racional -; Som Imaginário - que participou de O Milagre dos Peixes com Milton Nascimento-; ou Spiders From Mars do albúm do David Bowie/Ziggy Stardust " The Rise an Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars.

Voltando ao disco [Concentre-se no disco!]...

A faixa-título é genericamente uma bossa nova [9] - gênero que não é somente a batida do violão e o canto característico mas também é inerente uma linguagem "leve" [10]. A canção assemelha-se à uma música de ninar[11] ou feita para acalmar criança, mas paradoxalmente [e isso que é bom! Pois estamos falando de música e poesia, portanto não há a necessidade de sermos monossêmicos] sugere algo de outra ordem nos vocábulos ou frases como: "bu-bu-bulindo" que apesar de se conectar à forma que alguns pais falarem às crianças recém-nascidas balbuciando; liga-se também à bulinar o que é reforçado, na música, pelo vocábulo, cama e algumas onomatopéias como "mé".

Chegamos agora, considerando, é claro, toda a unidade da obra, ao seu ponto mais elevado: Mistério do Planeta. Composta por Morais e Galvão a letra, como sempre deveria acontecer, mostra e/ou segue a orientação do título, e portanto, não é de fácil intelecção. Vou tentar iluminar alguns mistérios.
Os perfeitos arranjos iniciais, assim como todos do elepê, são de Moraes e Pepeu, e a interpretação de uma beleza lírica, aliás o momento é de um lirismo ímpar, fica à cargo de Paulinho Boca de Cantor. O Mistério explícito na música é aquele que se não encontrará nos livros, teorias e etc, ele só será encontrado vivendo;


"Vou mostrando como sou e vou sendo como posso. Jogando meu corpo no mundo, andando por todos os cantos. "


E nas três fases da vida, que é comum à todos [ou deveria] :


"O tríplice mistério do "stop", que eu passo por e sendo ele no que fica em cada um".


Todo esse clima é muito bem construído e sustentado, além dos citados arranjos, pelo baixo e percussão do pessoal do A Cor do Som, e culmina com um dos maiores solos de toda a história: cortante, limpo, preciso, sem "fritações", - Pepeu no auge dos seus 20 anos!.

A próxima A Menina Dança parece ter sido escrita para o jeitinho irreverente de Baby [claro que antes dela virar evangélica. Sim, isso mesmo, Evangélica!], a letra já foi interpretada como mostrando uma gravidez e também como de ter conotação sexual. As duas posições são válidas considerando versos como : "E dentro da menina, a menina dança" e "Mas eu mesma viro os olhinhos"; mas como diz outra música dos Novos Baianos [12] "Mãe pode ter e ser bebê e até pode ser Baby também", então, assim, contemplemos as duas proposições.

Caminhando já para a parte final do disco ouçamos Besta é Tú que, num primeiro momento, sempre se mosta como sendo não muito profunda e até mesmo uma brincadeira, mas num outro nível, parece nos alertar contra a realidade que, de maneira vária, apreendemos como normal. Contrariando essa primeira impressão, a canção tem algo de filosófico que me remete à Nietzsche, precisamente, Assim Falou Zaratustra, que nos seus discursos, o terceiro, Zaratustra profere algumas palavras, as quais transcrevo algumas agora, para uma melhor entendimento[13]:

DOS CRENTES EM ALÉM MUNDOS.


Um dia, Zaratustra elevou a sua ilusão mais além da vida dos homens, à maneira de todos os que crêem em além-mundos.Obra de um deus dolente e atormentado lhe pareceu então o mundo.“Sonho me parecia, e ficção de um deus: vapor colorido ante os olhos de um divino descontente.Bem e mal, alegria e desgosto, eu e tu, vapor colorido me parecia tudo ante os olhos criadores. O criador queria desviar de si mesmo o olhar... e criou o mundo.Para quem sofre é uma alegria esquecer o seu sofrimento. Alegria inebriante e esquecimento de si mesmo me pareceu um dia o mundo.Este mundo, o eternamente imperfeito, me pareceu um dia, imagem de uma eterna contradição, e uma alegria inebriante para o seu imperfeito criador.Da mesma maneira projetei eu também a minha ilusão mais para além da vida dos homens à semelhança de todos os crentes em além-mundos. Além dos homens, realmente?Ai, meus irmãos! Este deus que eu criei, era obra humana e humano delírio, como todos os deuses.Era homem, tão somente um fragmento de homem e de mim. Esse fantasma saía das minhas próprias cinzas e da minha própria chama, e nunca veio realmente do outro mundo.Que sucedeu, meus irmãos? Eu, que sofria, dominei-me; levei a minha própria cinza para a montanha; inventei para mim uma chama mais clara. E vede! O fantasma ausentou-se!Agora que estou curado, seria para mim um sofrimento e um tormento crer em semelhantes fantasmas. Assim falo eu aos que creem em além-mundos.Agora que estou curado, seria para mim um sofrimento e um tormento crer em semelhantes fantasmas. Assim falo eu aos que creem em além-mundos.Sofrimentos e incompetências; eis o que criou todos os além-mundos, e esse breve desvario da felicidade que só conhece quem mais sofre. A fadiga, que de um salto quer atingir o extremo, uma fadiga pobre e ignorante, que não quer ao menos um maior querer; foi ela que criou todos os deuses e todos os além-mundos" [...]
[Grifos Meus]

A instrumental Bilhete pra Didi, explicita toda essa mistura e versatilidade que venho ressaltando, frevo, rock, baião, todos aqui, em mais uma bela demonstração de pegada de Pepeu Gomes. [Ah! O Didi que aparece no nome da música é o baixista Didi Gomes, irmão de Pepeu, que participa nessa gravação e entrou definitivamente pra banda em 76].

Pra fechar a obra, temos um repeteco de Preta Pretinha, versão reduzida, 3 minutos e 25 segundos, que foi pensada para ser tocada nas rádios, pois a outra, de mais de 6 minutos e meio, era impensável de serem lá vinculadas, mas contrariando expectativas esta última fez o maior sucesso.

Espero que tenha sucitado, com essa exposição, a vontade de vocês ouvirem este álbum que, para limitá-lo à uma classificação é, para mim, o maior albúm de música popular brasileira de todos os tempos. Não só para mim, mas outros orgãos de comunicação, como a revista Rolling Stone, também têm este vaticínio. [vejam aqui]

Bem, descansem da [extensa] leitura.

Link para baixar o CD aqui.



E Bom Som!



Sofista Minimus.


______________________
[1]. Novos, pois, velhos baianos se tratavam de Caetano, Gil, Gal e Bethânia.

[2]. Um compacto simples e outro duplo. Informações e datas no site "Oficial": http://www.sombras.com.br/novosb/novosb.htm

[3] . O próprio Moraes Moreira, no programa Ensaio da Tv Cultura, em 1973, afirmou que o grupo seria uma mistura de Jimi Hendrix com Jacob do Bandolim.

[4]. O Samba-exaltação, era um [sub-] gênero que se propunha a elevar as características sejam elas regionais ou de todo país. Teve talvez o seu maior expoente em Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, gravada na década de 30.

[5]. Luiz Galvão. Anos 70: Novos e Baianos.

[6]. Ezra Pound. ABC da Literatura. Introdução de Augusto de Campos.

[7]. Esse expressão da guitarra, presente, do início ao fim da música, conexa com a harmonia, é que me faz gostar, entre outras músicas, de Iron Man do Black Sabbath.

[8]. Pepeu Gomes e seu irmão o baterista Jorginho também faziam parte da banda, mas ao se casar com Baby, foi incorporado aos Novos Baianos.

[9]. Há também faixas, se não genuinamente bossanovísticas, fortemente influenciadas por esta como Quando Você Chegar até a satírica Sensibilidade da Bossa etc.

[10]. Ruy Castro. Chega de Saudade. pág. 321.

[11]. Bebel (Isabel), do Albúm Novos Baianos ou Linguagem do Alunte, composta por João Gilberto também é uma canção de ninar.

[12]. Sorrir e Cantar como Bahia do Albúm Novos Baianos Futebol Clube, de 1973.

[13]. Nietzsche. Assim Falava Zaratrusta. pag. 42.

terça-feira, 10 de março de 2009

Getz/Gilberto

Ficha Técnica:

Getz/Gilberto (Verve 521414).

Músicos: Stan Getz (Saxofone tenor), João Gilberto (Violão e Voz), Antonio Carlos "Tom" Jobim (piano), Sebastião Neto (Baixo), Milton Banana (Bateria) e Astrud Gilberto (Voz).
Gravado: Março de 1963.



A minha primeira indicação nesse espaço é o grande GETZ/GILBERTO – Live at Carnegie Hall, de 1963. É claro que escrevo, em parte, influênciado pelo cinqüentenário da Bossa Nova completados em 2.008, mas o fato é que este albúm possui qualidade inquestionável.

Gravado ao vivo, em Nova York, no legendário Carnegie Hall – o que contribuiu muito para criar a atmosfera intimista imprescindível ao violão de João – o albúm além dos artístas título, João Gilberto e saxofonista americano Stan Getz, credita também a cantora Astrud Gilberto e na produção e piano Antonio Carlos Jobim [!] o que já é garantia de boa música. Mas eles vão além, João Gilberto, virtuose com o violão e a sua batida que desenvolveu que e alcançou o mundo , nos imberbe num encantamento que faz tudo parecer muito fácil. Astrud Gilberto, simbiótica para a vida e o violão de João, cantando em português e inglês bela e singelamente. E um Tom Jobim mais contido, mas não menos brilhante, nos arranjos e acompanhamentos.

E por fim, contrastando com todos os outros ,Getz, e o seu Jazz “prolixo, exagerado” e agudo como asseveraram alguns. Mas aí está uma das grandes realizações desse trabalho, ao meu ver, a tentativa de conciliação de harmonias díspares.

Esse albúm possui uma “set-list” digna de coletânea Greatest Hits. Para iniciar o show a “standart” Garota de Ipanema [Creditada aqui também como Girl From Ipanema]. Com João iniciando no vocal, em português, e Astrud depois, em Inglês [1]. Doralice, de Caymmi , vem com a doçura e swingüe - ou “umbigada” como disse uma vez Moraes Moreira[2] - próprios de seu compositor retratando o encanto e o espanto de quem, de repente, se descobre apaixonado. P'ra Machucar Meu Coração é, até aqui, o momento em que Getz e Gilberto alcançam a sintonia, com um boa performance do saxofonista.

Seguindo o show, agora é a vez de Desafinado, estatuto de legalização da Bossa Nova e o seu canto característico – que não é propriamente desafinado. Astrud Gilberto volta belíssima em Corcovado que, para quem não se lembra, foi até tema de abertura de novela [“Laços de Família”] e que possui, em parte de seus versos, um de meus ideais de vida. Que por ser motivo e objeto da mais sublime vivência – o inefável [3] – transcrevo-o, pois qualquer comentário desse trecho seria insatisfatório.



“Um cantinho um violão

Esse Amor uma canção

Pra fazer feliz a quem se ama

Muita calma pra pensar

E ter tempo pra sonhar

Da janela ver se o Corcovado

E o Redentor que lindo.


Quero a vida sempre assim

Com você perto de mim

Até o apagar da velha chama”.


Para quem achar que esse albúm se limita somente à Bossa Nova ou as incursões Jazzísticas de Getz, o que não acontece, o samba pede sua vez em Só Danço Samba - letra de Vinícius de Moraes e música de Tom - que João que J. Gilberto conduz com uma simplicidade ímpar e conta com um excelente solo de Getz.

Na seqüência é a vez da cálida e da quase elegíaca O Grande Amor, aqui os agudos de Getz chegam ao ponto máximo o que gera, em mim, um princípio de desconforto, leve. Pra terminar, a etérea Vivo Sonhando que a persona configurada na canção vive sonhando e imaginando, em meio a idéias de estrelas, mar, céu e etc, se é correspondido no amor, o que além de ser obviamente importante, é motivo para a sua lamentação pois como o mesmo diz “pobre de mim que só sei te amar”.

Um ano depois, em 1964, o disco ganhou companhia e foi lançado o segundo volume. Este, que com participação maior de Getz, contém maiores apresentações Jazzísticas como em Grandfather's Waltz, Tonight I Shall Sleep with a Smile on My Face e o Blues em Stan's Blues. Mas também com a presença – ou volta do swingüe e de Caymmi- de Samba da Minha Terra. A destreza e excelência de João em Um Abraço no Bonfá e os quase exercícios “Bossanovísticos” de descontração Bim Bom e O Pato, ótimas.
Em Only Tust Your Heart e It Might as Well Be Spring há uma conciliação tão alta que quase resultou num outro gênero, se houvesse aqui uma ruptura ou intenção criadora do novo.
E finalizando, de vez agora, outra vez voltam aquelas que não poderiam faltar, ainda mais para um público estrangeiro Corcovado [Quiet Nights of Quiet Stars] e Garota de Ipanema [Girl From Ipanema] pra culminar com Astrud , em português, em Você e Eu.

A audição desse trabalho vale, senão pela exímia qualidade musical dos artistas, mas sim pela inversão de papéis e valores que aconteceu nesse momento. Como queria o Oswald de Andrade no seu "Manifesto Antropofágico", de 1928, que propunha a assimilação devoradora das idéias européias que resultaria numa criação nova e de exportação e inspiração para o mundo inteiro; aqui é o brasileiro João Gilberto criador da Bossa, que não o fez a partir do nada mas sim, segundo alguns, do Jazz (outros como Ruy Castro dizem que ele a Bossa Nova nada tinha de Jazz), cantando e tocando didaticamente, como também fez Jobim com Getz, o novo ritmo que virou influência para músicos americanos do quilate de Charles Byrd, Gerry Mulligan, Cannobal Adderley na época.

Você pode fazer o Download desse Cd nesse link:
CD1: Aqui.


CD2:Aqui.



E BOM SOM!


Sofista Minimus.


______________________
1. No livro de Ruy Castro; Chega de Saudade, Companhia das Letras, 1990., pág.338. Há a informação que esta faixa foi gravada com 5 min e 15 segundos, contando "a parte de João, em português; a entrada de Astrud, em inglês; o solo de Getz; o solo de Tom ao piano; e a volta de Astrud com Getz para terminar". Posteriormente, o produtor e dono da Gravadora Verve, Tom Creed, exlcluiu a parte vocal de João, 1 min e 20 segundo, para ficar "boa" pra tocar no rádio.

2.Novos Baianos. Programa Ensaio. Tv Cultura, 1974. Música Ladeira da Praça.

3. Jaa Torrano. Teogonia: A Origem dos Deuses, de Hesíodo. Cap. 1. pág.11.

quinta-feira, 5 de março de 2009

O Carnaval.



Não, o carnaval na sua configuração atual não faria parte da minha paideuma (menos ainda de qualquer espécie de paidéia[1]). Esse Carnaval que conhecemos, principalmente, aquele mais divulgado na mídia, como os do sambôdromo do Rio e de São Paulo, perdeu a sua principal característica de festa do povo e para o povo. Excetuo aqui o carnaval de "bloco" destes mesmos estados e o carnaval pernambucano que, em essência, e culturalmente, é lindo. De todo modo, não sou especialista em carnaval. O que me interessa são algumas composições que, essas sim, mereceriam figurar em uma lista por sua qualidade inegável e por serem representantes "não desvirtuadas" deste espírito carnavalesco: os sambas-enredo e marchinhas.

Elenco aqui alguns que fazem parte da minha antologia: Aquarela Brasileira, composto por Silas de Oliveira, samba-enredo da Império Serrano, em 1964. Este, para mim, é o maior samba-enredo de todos os tempos. Por aliar um bom "andamento" e cadência à um certo didatismo, é uma verdadeira aula - geográfica, cultural- sobre o Brasil. Até hoje me arrepio somente por ouvir o início desse samba, seja a versão da Império ou mesmo do Martinho da Vila que o gravou depois. Letra logo abaixo:


AQUARELA BRASILEIRA

Vejam esta maravilha de cenário
É um episódio relicário
Que o artista num sonho genial
Escolheu para este carnaval
E o asfalto como passarela
Será a tela
Do Brasil em forma de aquarela
Passeando pelas cercanias do Amazonas
Conheci vastos seringais
No Pará, a ilha de Marajó
E a velha cabana do Timbó
Caminhando ainda um pouco mais
Deparei com lindos coqueirais
Estava no Ceará, terra de Irapoã
De Iracema e Tupã
Fiquei radiante de alegria
Quando cheguei à Bahia
Bahia de Castro Alves, do acarajé
Das noites de magia do candomblé
Depois de atravessar as matas do Ipu
Assisti em Pernambuco
À festa do frevo e do maracatu
Brasília tem o seu destaque
Na arte, na beleza e arquitetura
Feitiço de garoa pela serra
São Paulo engrandece a nossa terra
Do leste por todo o centroeste
Tudo é belo e tem lindo matiz
O Rio dos sambas e batucadas
De malandros e mulatas
De requebros febris

Brasil, essas nossas verdes matas
Cachoeiras e cascatas
De colorido sutil
E este lindo céu azul de anil
Emolduram em aquarela o meu Brasil

Lá rá rá rá rá
Lá lá lá lá iá

Ouça aqui!

Se tratando de Império Serrano há ainda um outro samba de rara beleza e de grande conhecimento público, apesar de poucos saberem sua origem. Estou falando do samba-enredo chamado A Lenda das Sereias Rainhas do Mar que foi muito popular no anos 70 na voz de Clara Nunes e depois com Marisa Monte, composto para o carnaval de 1976 por Vicente Mattos, Dinoel Sampaio, Arlindo Velloso.

A Lenda das Sereias Rainhas do Mar

O mar, misterioso mar
Que vem do horizonte
É o berço das sereias
Lendário e fascinante
Olha o canto da sereia
Ialaô, Okê, laloá
Em noite de lua cheia
Ouço a sereia cantar
E o luar sorrindo
Então se encanta
Com a doce melodia
Os madrigais vão despertar
Ela mora no mar
Ela brinca na areia
No balanço das ondas
A paz ela semeia (bis)
Toda a corte engalanada
Transformando o mar em flor
Vê o Império enamorado
Chegar à morada do amor
Oguntê, Marabô
Caiala e Sobá
Oloxum, Inaê (bis)
Janaína, Iemanjá
São Rainhas do Mar...
Clique aqui pra ouvir.

A Império também tem o quase impronunciável, e acho que onomatopáico, samba "Bumbum Praticumbum Prugurundum" [Beto sem Braço e Aluísio Machado]. O samba tem um sabor metalinguístico e fala sobre os acontecimentos do carnaval e sensações advindas dele. Ouça!

Limitando-se somente em sambas-enredo que fizeram sucesso também na música popular brasileira, a escola de samba carioca União da Ilha possui dois belos exemplares: O Amanhã e É Hoje.

O Amanhã, composta para o carnaval de 1978, foi regravada pela cantora Simone e possui aquele conhecido refrão:

"Como será o amanhã
Responda quem puder
O que irá me acontecer
O meu destino será como Deus quiser".
Ouça Aqui!


Em 1982, essa escola veio com outro grande samba que já foi regravado por Caetano Veloso e fez grande sucesso com Fernanda Abreu. Quem nunca ouviu ou cantou esses versos:

"É hoje o dia da alegria
É a tristeza, nem pode pensar em chegar
Diga espelho meu!
Diga espelho meu
Se há na avenida alguém mais feliz que eu".
Ouça!

O Salgueiro entra nessa lista com o samba "Peguei um Ita no Norte", de 1993, com os conhecidos versos: "Explode Coração! Na maior Felicidade! É lindo meu Salgueiro! Contagiando e sacudindo essa Cidade". Ouça aqui!

Outro antológico, e que foge à essa temática festiva, é o da escola de samba Em Cima da Hora, "Os Sertões", livremente inspirado no livro homônimo de Euclides da Cunha e na Guerra de Canudos. Ouça!

De temática social também é o samba-enredo da Mangueira, de 1988, "100 Anos de Liberdade, Realidade ou Ilusão" que como já expresso no título fala sobre a escravidão e questiona se ainda estamos, ou não, nesse período. Ouça Aqui!

Pra fechar, lembro aqui uma das marchas mais conhecidas do carnaval, principalmente quando falamos de Pernambuco: Vassourinhas [Mathias da Rocha e Joana Batista Ramos]. Se você pensa que não conhece essa marchinha, engana-se pois geralmente quando vêmos, em qualquer lugar, alguém dançando frevo é ao som dessa marcha. Clique aqui para ouvir.

Termino essa lista, contando com a participação de vocês, pra lembrar de mais sambas/marchinhas e etc significativas e marcantes do carnaval.

Bom Som!

Sofista Minimus.

___________
[1]. Paidéia é, segundo Jaeger, em livro de mesmo nome; o sistema educativo que visava formar o homem individual, e mais ainda, o cidadão.