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terça-feira, 19 de maio de 2009

O Amor Líquido [Ou algumas considerações acerca do amor moderno]


Este é um artigo que nunca gostaria de escrever e muito menos que fosse necessária a sua indicação. Não por uma possível inutilidade, mas sim por um desejo idealista meu de que o Amor, instância para mim superior, fosse sempre imaculado e não influenciado por qualquer coisa que esteja fora dele mesmo. Mas infelizmente, neste sentido, como disse Marx:

"O modo de produção dos bens materiais de existência determina necessariamente o processo de vida social, cultural e intelectual” [1].

Sendo o amor um fenômeno social e, portanto, construído historicamente, sofre influências desse mundo que se convencionou chamar de "pós-moderno" [2] e do modo de produção neoliberal, em que o "homem sem vínculos" [3] é eleito o nosso grande herói. Esse é o cerne do pensamento de Zygmunt Bauman, um dos nossos maiores sociólogos vivos, preocupação que pode ser vista melhor no seu livro, Modernidade Líquida e, em relação ao tema deste artigo, o Amor Líquido: Sobre a fragilidade dos laços humanos.

O conceito de líquido é uma retomada da célebre frase de Marx: "Tudo que é sólido se desmancha no ar" [4]; em que o filósofo critica a atuação da burguesia de substituir todas as relações que eram sólidas como, por exemplo, o amor e a família, que tanto ele como seu companheiro de produção Hengels, dissertariam depois [5]. Bauman estuda essas novas características modernas de conceitos líquidos, fluidos e leves que surgiram em oposição às ideologias fortes, pesadas e sólidas.

"O que todas essas características dos fluidos mostram, em linguagem simples, é que os líquidos, diferentemente dos sólidos, não mantêm sua forma com facilidade. Os fluidos, por assim dizer, não fixam o espaço nem prendem o tempo."[6]

Outra característica deste mundo líquido é o final da crença de que podemos alcançar um Estado de perfeição no futuro, que, pensando assim, "excluem-se" os valores sociais enquanto mantêm-se os individuais, com o seguinte pensamento: "Já que um mundo próspero não é possível então para quê gastarmos nosso tempo com isso?" [7].

Mas não podemos compreender a liquidez de Bauman simplesmente relacionada ao vazio ou ao randômico, mas sim associada à leveza de Ítalo Calvino, nas Seis propostas para o próximo milênio, em que esta seria ligada à determinação e à precisão e neste enfrentamento de forças a liquidez deixa e leva marcas nesse fluir.

Neste sentido a liquidez é um sólido e o próprio autor afirma que a modernidade tem por característica o derretimento dos sólidos desde o seu princípio, mas como preparação para outros e novos sólidos. Podemos conferir que essa liquidez não está próxima do aleatório, mas sim do determinado e assim à leveza; aproximação que Bauman mesmo fez:

“Há líquidos que, centímetro cúbico por centímetro cúbico, são mais pesados que muitos sólidos, mas ainda assim tendemos a vê-los como mais leves; menos “pesados” que qualquer sólido”.[8]

Para iluminarmos mais ainda estas passagens evoco Valery que, aliás, aparece em outra citação já no início do livro: “É preciso ser leve como o pássaro, e não como a pluma” [9]. Em que expressa mais uma vez com clareza o exemplo da determinação precisa.

Voltando à questão do amor líquido que, neste livro, é estudado por Bauman nas suas várias possibilidades, como sendo: amor ao próximo, ao cônjuge ou nós mesmos. Na era globalizada, que a velocidade, seja de informações ou contato, é de extrema importância, tudo passa a ser encarado como mercadoria [10] e, o amor, como conceito, passa então a sofrer algumas modificações.

O homem criou ou se identificou em tribos, grupos, cidades, estados e etc., ou seja, necessita de relacionar-se, mas os relacionamentos modernos, segundo Bauman, são um dos valores mais ambivalentes; "pedimos" um relacionamento, mas ao mesmo tempo ansiamos para que seja leve.

Pelo ritmo veloz e influência da mídia não usamos freqüentemente a palavra relacionamento, que soa excessivamente pesada, mas sim "conectar-se" expressão identificada com o mundo virtual onde outro modelo ilustra o mundo líquido: as redes. Sejam elas sociais ou de relacionamentos, como os conhecidos Orkut e MSN, pessoas se conectam umas às outras e conservam as suas redes, em que as conexões entre pessoas são feitas por escolhas tanto para conectar-se ou desconectar-se, tudo isso num ambiente de movimentos em que o compromisso pode fechar portas para novas conexões ou experiências. Observe o crescente número de pessoas que se proclamam de "relacionamento aberto" ou os "casais semi-separados", tudo isso para não diminuírem suas "possibilidades românticas" e também quando qualquer conexão começa a dar problema ou, às vezes, muito antes disso, a reação é, ao invés de se pensar em resolver o problema, tem-se a "vantagem" de desconectar, excluir, deletar ou simplesmente bloquear para outro momento oportuno ou um “nunca mais" que seja.

Além da velocidade e a noção de mercadoria, que juntas, tornam lícita e até mesmo justificam posições como o relacionamento aberto, em que, como numa aplicação na bolsa de valores, não titubeamos em vender uma ação quando ela está em baixa, da mesma forma, não hesitamos, segundo Bauman, de fazer o mesmo quando aparece uma nova possibilidade de "conexão" aparentemente mais lucrativa que a nossa atual. Este livro de Bauman não é uma coleção de formulas de sucesso para o amor (isso é coisa para os livros de auto-ajuda!) nem de como conservá-lo, mas ele traça um panorama definido sobre o momento único que vivemos, em que nunca houve tanta liberdade e facilidade na escolha de nossos parceiros - no sentindo de ser possível a possibilidade -, no entanto, isso nós remonta a um cenário dramático de incertezas, pois não sabemos se queremos ou não sair dessa situação [11], que é o que faz o autor não ter um prognóstico definitivo sobre o nosso rumo. Isso revela o que, Gioconda Bordon, disse, certa vez sobre o livro [12]:

"A sociedade neoliberal, pós-moderna, líquida, para usar o adjetivo escolhido pelo autor, e perfeitamente ajustado para definir a atualidade, teme o que em qualquer período da trajetória humana sempre foi vivido como uma ameaça: o desejo e o amor por outra pessoa."

Não estou generalizando ou tendo uma visão pessimista do amor, que como disse no início, e ainda continuo com essa posição, é de uma instância superior, mas uma observação muito atenta deste livro e mesmo do pensamento de Bauman, é necessária, pois o estágio atual do mundo e do amor moderno seja como negação, percepção e adesão, nos afeta.

Bom pensamento e bom ócio!




Sofista Minimus.




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[1]. Karl Marx. A Ideologia Alemã. Boitempo, São Paulo, 2007.

[2]. Termo muito usado por pensadores como Jean-François Lyotard que, entre outras diz, que a era das grandes narrativas, os mitos e os grandes esquemas ou escolas de pensamento haviam chegado ao fim.

[3]. Esse é o héroi do livro de Roberto Musil, O Homem Sem Qualidades, que Bauman retoma.

[4]. Karl Marx. O Manifesto do Partido Comunista. L&PM, São Paulo, 2001. Esta frase também é o título de um bom livro de Marshal Berman que também estuda a modernidade.

[5]. Hengels escreveu, por exemplo, A Origem da Família.

[6]. Zygmunt Bauman. Modernidade Líquida. Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 2001. Pág. 8.

[7]. Antonio Candido, num belo especial dedicado aos seus 90 anos, ano passado, abordou o assunto alertando para o perigo que marca o final dessas grandes ideologias, marca da nossa época, em que pode ser iminente que surja um discurso ufano ou mesmo "religioso-além-mundano”, com bastante força.

[8]. Modernidade Líquida. pág. 8.

[9]. Ítalo Calvino. Leveza. In Seis propostas para o próximo milênio. Companhia das Letras, São Paulo, 1990.

[10]. Karl Marx, no primeiro capítulo d’O Capital, já nos alertava para a característica burguesa de considerar tudo como uma mercadoria.

[11]. E talvez essa condição ideal nunca possa ser possível, pois Bauman diz adiante que "Todo amor é antropofágico” assim pode ser considerado como sendo um relacionamento por excelência "pesado" por mais que aspire à leveza.

[12]. Jornal Gazeta Mercantil, Caderno Fim de Semana, em 31 de julho de 2004

domingo, 1 de março de 2009

Sobre a Verdade.



Não poderia começar esta seção, em que pretendo somar pensamentos gerais, sem abordar o leitmotiv que originou e desenvolveu a arte da filosofia: A Verdade. Poucas vezes atinamos conscientemente para saber o que é ou não verdade, mas sempre atribuimos à noção de verdadeiro ou falso às coisas, situações, relatos e etc. Segundo Marilena Chauí[1], a filosofia surgiu a medida que as narrativas míticas, que tinham a função didática de explicar a "origem de alguma coisa", passaram a ser insuficientes para tanto. Seguindo ainda a autora, essas narrativas eram ouvidas e tidas como verdadeiras pelos ouvintes; efeito causado pelo princípio de autoridade conferida à figura do rapsodo que era quem participou ou presenciou os fatos, ou ainda poderia ser escolhido pelos deuses para a tarefa de contar as histórias. E é nesse cenário que "nasce" a filosofia, com a preocupação - eminentemente platônica - pela busca da Verdade[2]. É essa busca pelo verdadeiro - o real - que fez o filósofo excluir, entre outras coisas, a poesia da sua cidade ideal, n'A República, porque ela é mímese ou imitação [ e em alguns casos de caracteres baixos]. Assim, toda criação presente no mundo - e até o mundo - era uma imitação da natureza verdadeira que existia no mundo das idéias, assim portanto, a poesia que imita essa natureza -que não já é a "Autêntica"- é um simulacro da realidade, falsa ou cópia de segunda mão.

Aristóteles até assume o conceito platônico mas reabilita novamente a poesia, efetivamente, por seu carácter mimético posto que a imitação é propria aos humanos, pois, para ele, adquirimos nossos primeiros conhecimentos ou hábitos imitando [3]. Outro argumento elencado por ele é por a poesia encerrar - e ser - mais filosófica que a História posto que esta trata do particular enquanto aquela trata do universal [4].
Neste ponto é que Aristóteles distancia-se do seu mestre, não só na questão da poesia mas abandonando a busca reta e excessiva da Verdade, aceitando como válida a verossimilhança, isto é, a aparência de verdade. Não é necessário, assim, narrar o que aconteceu de maneira exata - tarefa da História como disciplina - mas sim o acontecimento como provável, como poderia ter acontecido.

Górgias de Leontini, filósofo e professor de Retórica, ao tratar das questões da persuasão, diz que esta deve se ater de qualquer matéria, mas apenas como "doxa" (opinião) já que enquanto opinião pública , a "verdade social" - não a verdade em termos absolutos - "nos escapa" [5]. Segundo Manuel Alexandre Júnior, Górgias afirma que não conhecemos a verdade de maneira direta mas sim:

"uma visão da verdade, uma visão materializada em palavras e não a realidade em si mesma; pois é pela magia da palavra (logos)que pensamos e explicamos a realidade... mas não a realidade objetiva[6]".


A linguagem não é "um veículo neutro ou transparente de representação factual da realidade" como queriam os positivistas [7] e portanto, para Górgias, a filosofia deve abandonar a busca da Verdade absoluta.

Quem tem olhar parecido, mas sob um enfoque diferente é Nietzsche. Para ele "a verdade é um valor" e o homem "procura a verdade num mundo que não se contradiz, não se engana, não muda, um mundo verdadeiro"[8]. Essa afirmação resalta a necessidade que o homem tem de se sentir seguro, que se sentirá realizado "no mundo estável que não se contradiz" [Zakerla] e é o mundo em que estão todos os valores absolutos. Belo, Bom e Verdadeiro residem lá e são garantidos por Deus que com a afirmação bombástica: "Deus está morto", Nietzsche implode esse princípio de transcendência, de "além-mundo" redimencionando-nos de maneira nova no nosso cômodo habitat.

Esse percurso todo foi feito aqui para demonstrar o problema e as implicações de se buscar a Verdade de forma absoluta sendo que, para nós hoje, como diz Chauí [9], é muito difícil essa busca e mesmo conhecê-la, levando-se em conta que vivemos num mundo que recebe informações de todos os lados por jornais, televisão, internet e etc e acreditamos, na maioria das vezes, que estamos recebendo informações verdadeiras. Mas, para testar a validade da afirmação, seria suficiente, segundo Chauí ainda, que alguém lesse vários jornais, assistisse telejornais diferentes [e] comparando os noticiários diversos, para perceber que as mesmas "não se batem" e que existem "várias verdades".

A verdade, como diz Nietzsche, é um valor e a posse desse valor emana poder em nossa sociedade, como acontece no livro 1984, de George Orwell. O poder vigente - nesta obra - cria a Novilígua em que as palavras que são inventadas estão a favor do estado instituído e destrói outras palavras que poderia fazer a verdade aparecer. Isto é, a posse da verdade e o uso da mentira eram usadas para manter o "status quo" e assim toda a sociedade submissa. Devemos observar e tentar perceber se 1984 é ficção, ou realmente existe, e de que forma a Verdade é usada nesse nosso mundo.




Bom Ócio!



Sofista Minimus.

Post Scriptum: Não é esse o espaço onde farei mas fica aqui tambem a indicação do livro 1984 de George Orwell, pseudônimo de Eric Arthur Blain.


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[1]. Marilena Chauí. Convite à Filosofia. Ed. Ática. São Paulo. 2000. pág. 32.

[2]. Vale lembrar aqui que estou, em parte, desconsiderando uma contenda em vigência na época, a disputa pelo o que viria ser considerado posteriormente como Filosofia, entre Platão e Isócrates, com a vitória do primeiro, que só tomei conhecimento tempos atrás lendo - leitura ainda incompleta - uma brilhante tese de doutoramento de Marcos Sidnei Pagotto-Euzébio intitulada "O Aluno Ideal e o Mestre Perfeito: o Agón entre Platão e Isócrates", defendida na FEUSP.

[3]. Aristóteles. Poética. Cap IV.
[4]. Aristóteles. Poética. Cap IX.
[5]. Manuel Alexandre Júnior. Retórica um saber Interdisciplinar. Pág, 3.
[6]. Idem. Ibidem.
[7]. Alcir Pécora. Máquina dos Gêneros. pág.11.
[8]. Luciana Zaterka. Nietzsche: A Verdade como ficção. pág. 84.
[9]. Marilena Chauí. Convite à Filosofia.