terça-feira, 19 de maio de 2009

O Amor Líquido [Ou algumas considerações acerca do amor moderno]


Este é um artigo que nunca gostaria de escrever e muito menos que fosse necessária a sua indicação. Não por uma possível inutilidade, mas sim por um desejo idealista meu de que o Amor, instância para mim superior, fosse sempre imaculado e não influenciado por qualquer coisa que esteja fora dele mesmo. Mas infelizmente, neste sentido, como disse Marx:

"O modo de produção dos bens materiais de existência determina necessariamente o processo de vida social, cultural e intelectual [1].

Sendo o amor um fenômeno social e, portanto, construído historicamente, sofre influências desse mundo que se convencionou chamar de "pós-moderno" [2] e do modo de produção neoliberal, em que o "homem sem vínculos" [3] é eleito o nosso grande herói. Esse é o cerne do pensamento de Zygmunt Bauman, um dos nossos maiores sociólogos vivos, preocupação que pode ser vista melhor no seu livro, Modernidade Líquida e, em relação ao tema deste artigo, o Amor Líquido: Sobre a fragilidade dos laços humanos.

O conceito de líquido é uma retomada da célebre frase de Marx: "Tudo que é sólido se desmancha no ar" [4]; em que o filósofo critica a atuação da burguesia de substituir todas as relações que eram sólidas como, por exemplo, o amor e a família, que tanto ele como seu companheiro de produção Hengels, dissertariam depois [5]. Bauman estuda essas novas características modernas de conceitos líquidos, fluidos e leves que surgiram em oposição às ideologias fortes, pesadas e sólidas.

"O que todas essas características dos fluidos mostram, em linguagem simples, é que os líquidos, diferentemente dos sólidos, não mantêm sua forma com facilidade. Os fluidos, por assim dizer, não fixam o espaço nem prendem o tempo."[6]

Outra característica deste mundo líquido é o final da crença de que podemos alcançar um Estado de perfeição no futuro, que, pensando assim, "excluem-se" os valores sociais enquanto mantêm-se os individuais, com o seguinte pensamento: "Já que um mundo próspero não é possível então para quê gastarmos nosso tempo com isso?" [7].

Mas não podemos compreender a liquidez de Bauman simplesmente relacionada ao vazio ou ao randômico, mas sim associada à leveza de Ítalo Calvino, nas Seis propostas para o próximo milênio, em que esta seria ligada à determinação e à precisão e neste enfrentamento de forças a liquidez deixa e leva marcas nesse fluir.

Neste sentido a liquidez é um sólido e o próprio autor afirma que a modernidade tem por característica o derretimento dos sólidos desde o seu princípio, mas como preparação para outros e novos sólidos. Podemos conferir que essa liquidez não está próxima do aleatório, mas sim do determinado e assim à leveza; aproximação que Bauman mesmo fez:

“Há líquidos que, centímetro cúbico por centímetro cúbico, são mais pesados que muitos sólidos, mas ainda assim tendemos a vê-los como mais leves; menos “pesados” que qualquer sólido”.[8]

Para iluminarmos mais ainda estas passagens evoco Valery que, aliás, aparece em outra citação já no início do livro: “É preciso ser leve como o pássaro, e não como a pluma” [9]. Em que expressa mais uma vez com clareza o exemplo da determinação precisa.

Voltando à questão do amor líquido que, neste livro, é estudado por Bauman nas suas várias possibilidades, como sendo: amor ao próximo, ao cônjuge ou nós mesmos. Na era globalizada, que a velocidade, seja de informações ou contato, é de extrema importância, tudo passa a ser encarado como mercadoria [10] e, o amor, como conceito, passa então a sofrer algumas modificações.

O homem criou ou se identificou em tribos, grupos, cidades, estados e etc., ou seja, necessita de relacionar-se, mas os relacionamentos modernos, segundo Bauman, são um dos valores mais ambivalentes; "pedimos" um relacionamento, mas ao mesmo tempo ansiamos para que seja leve.

Pelo ritmo veloz e influência da mídia não usamos freqüentemente a palavra relacionamento, que soa excessivamente pesada, mas sim "conectar-se" expressão identificada com o mundo virtual onde outro modelo ilustra o mundo líquido: as redes. Sejam elas sociais ou de relacionamentos, como os conhecidos Orkut e MSN, pessoas se conectam umas às outras e conservam as suas redes, em que as conexões entre pessoas são feitas por escolhas tanto para conectar-se ou desconectar-se, tudo isso num ambiente de movimentos em que o compromisso pode fechar portas para novas conexões ou experiências. Observe o crescente número de pessoas que se proclamam de "relacionamento aberto" ou os "casais semi-separados", tudo isso para não diminuírem suas "possibilidades românticas" e também quando qualquer conexão começa a dar problema ou, às vezes, muito antes disso, a reação é, ao invés de se pensar em resolver o problema, tem-se a "vantagem" de desconectar, excluir, deletar ou simplesmente bloquear para outro momento oportuno ou um “nunca mais" que seja.

Além da velocidade e a noção de mercadoria, que juntas, tornam lícita e até mesmo justificam posições como o relacionamento aberto, em que, como numa aplicação na bolsa de valores, não titubeamos em vender uma ação quando ela está em baixa, da mesma forma, não hesitamos, segundo Bauman, de fazer o mesmo quando aparece uma nova possibilidade de "conexão" aparentemente mais lucrativa que a nossa atual. Este livro de Bauman não é uma coleção de formulas de sucesso para o amor (isso é coisa para os livros de auto-ajuda!) nem de como conservá-lo, mas ele traça um panorama definido sobre o momento único que vivemos, em que nunca houve tanta liberdade e facilidade na escolha de nossos parceiros - no sentindo de ser possível a possibilidade -, no entanto, isso nós remonta a um cenário dramático de incertezas, pois não sabemos se queremos ou não sair dessa situação [11], que é o que faz o autor não ter um prognóstico definitivo sobre o nosso rumo. Isso revela o que, Gioconda Bordon, disse, certa vez sobre o livro [12]:

"A sociedade neoliberal, pós-moderna, líquida, para usar o adjetivo escolhido pelo autor, e perfeitamente ajustado para definir a atualidade, teme o que em qualquer período da trajetória humana sempre foi vivido como uma ameaça: o desejo e o amor por outra pessoa."

Não estou generalizando ou tendo uma visão pessimista do amor, que como disse no início, e ainda continuo com essa posição, é de uma instância superior, mas uma observação muito atenta deste livro e mesmo do pensamento de Bauman, é necessária, pois o estágio atual do mundo e do amor moderno seja como negação, percepção e adesão, nos afeta.

Bom pensamento e bom ócio!




Sofista Minimus.




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[1]. Karl Marx. A Ideologia Alemã. Boitempo, São Paulo, 2007.

[2]. Termo muito usado por pensadores como Jean-François Lyotard que, entre outras diz, que a era das grandes narrativas, os mitos e os grandes esquemas ou escolas de pensamento haviam chegado ao fim.

[3]. Esse é o héroi do livro de Roberto Musil, O Homem Sem Qualidades, que Bauman retoma.

[4]. Karl Marx. O Manifesto do Partido Comunista. L&PM, São Paulo, 2001. Esta frase também é o título de um bom livro de Marshal Berman que também estuda a modernidade.

[5]. Hengels escreveu, por exemplo, A Origem da Família.

[6]. Zygmunt Bauman. Modernidade Líquida. Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 2001. Pág. 8.

[7]. Antonio Candido, num belo especial dedicado aos seus 90 anos, ano passado, abordou o assunto alertando para o perigo que marca o final dessas grandes ideologias, marca da nossa época, em que pode ser iminente que surja um discurso ufano ou mesmo "religioso-além-mundano”, com bastante força.

[8]. Modernidade Líquida. pág. 8.

[9]. Ítalo Calvino. Leveza. In Seis propostas para o próximo milênio. Companhia das Letras, São Paulo, 1990.

[10]. Karl Marx, no primeiro capítulo d’O Capital, já nos alertava para a característica burguesa de considerar tudo como uma mercadoria.

[11]. E talvez essa condição ideal nunca possa ser possível, pois Bauman diz adiante que "Todo amor é antropofágico” assim pode ser considerado como sendo um relacionamento por excelência "pesado" por mais que aspire à leveza.

[12]. Jornal Gazeta Mercantil, Caderno Fim de Semana, em 31 de julho de 2004

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Acabou Chorare, Novos Baianos.


Ficha Técnica:

Acabou Chorare.

Coordenação geral: João Araújo;Produção musical – Eustáquio Sena;Gravadora: Som Livre. Estúdio: Somil
Produção gráfica e fotos: Antonio Luis (Lula);Montagem do álbum – Joel Cocchiararo.
Músicos: Pepeu (Guitarra; Violão solo e Craviola); Jorginho (bateria; bongô e Cavaquinho); Baixinho (Bateria, Bumbo e Bongô); Dadi (Baixo); Moraes Moreira (Violão base);Paulinho Boca de Cantor (Pandeiro); Baby Consuelo (Afoxé, triangulo e maracas) e Bolacha (Bongô).

Arranjos:
Moraes Moreira e Pepeu Gomes



Antes de iniciar propriamente a análise da obra, preciso nos situar no momento anterior ao seu lançamento, mas que, certamente, determinou a sua concepção.

Início dos anos 70 e o país acabara de passar pelos seus movimentos musicais mais importantes: Bossa Nova e Tropicália. Foi pouco após ao surgimento e explosão desta última "vanguarda" que se formou os Novos Baianos[1], e assim, com clara orientação tropicalista, haviam concebido e lançado Ferro na Boneca [1970], essencialmente roqueiro; o quase experimental No Fim Do Juízo [1971] e mais dois compactos [2]. Após mudarem-se para um apartamento, em Botafogo, no Rio de Janeiro, aconteceu um encontro que entraria para a história da música brasileira. Convidado pelo integrante da banda e poeta, Luiz Galvão, João Gilberto foi visitá-los; ao abrir a porta Dadi pensou que aquele homem de terno era um policial, mas felizmente era João e o violão, que para a surpresa de todos ali que eram seus fãs, reinventou a forma destes baianos ver e tocar música, principalmente, neste aspecto, Moraes Moreira e Pepeu Gomes. João não se limitou exlusivamente a aproximá-los de uma incorporação deles à bossa-nova, como também indicou que fizessem releituras, assim como ele, de sambas antigos, o que foi seguido não só neste instante mas nos outros albúns da banda.

Assim começou a história do ACABOU CHORARE, título um tanto insólito, mas explico-lhes: numa dessas visitas João contou que, no período que passara o exílio no México, sua filha, a hoje cantora Bebel Gilberto, frequentemente misturava o português com o espanhol, e certa vez, ao cair, enunciou: "Acabou Chorare, papai".
Iniciando, de fato, o albúm, a primeira música é Brasil Pandeiro, cantada com um sabor e swingue singular por Baby Consuelo, revela as preceptivas do albúm, o que fariam à partir desse instante, expressa em versos como:


“Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor
Eu fui à Penha e pedi à padroeira para me ajudar
Salve o Morro do Vintém, pendura a saia que eu quero ver
Eu quero ver o Tio Sam tocar pandeiro para o mundo sambar”

[...]

"O Tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada"



Estão aí registradas a "receita" que muitos[3] usaram para definir o grupo como uma mistura de Jimi Hendrix [que aqui poderia ser o "Tio Sam"] e "batucada" representado pelos ritmos brasileiros e também por Jacob do Bandolim[3]. Brasil Pandeiro é uma nova leitura de um samba exaltação[4], dos anos 30, composta por Assis Valente, e esta era a indicação que mencionei que João Gilberto fez para o grupo.

A segunda faixa é Preta Pretinha cantada por Moraes e escrita por Galvão, que conta no livro que escreveu sobre Os Novos Baianos, que a letra nasceu de um romance mal sucedido[5].


“A jovem combinou comigo para que eu fosse a Niterói conhecer seu pai e, na volta, ela viria morar comigo no apartamento dos Novos Baianos, em Botafogo. Pegamos a barca, conheci o pai dela, mas, na volta, ela se arrependeu e voltou para o seu namorado. À noite, escrevi a letra sob o impacto desse insucesso e, na certa, o subconsciente deu uma panorâmica em todas as minhas histórias de amor.”
Assim, veio-lhe à lembrança a figura de Socorrinho (“Só, somente só...”), uma antiga namorada de Juazeiro, que completou a inspiração para os versos de “Preta Pretinha”:

“Enquanto eu corria / assim eu ia / lhe chamar / enquanto corria a barca / em minha cabeça / não passava / só, somente só? assim vou lhe chamar? assim você vai ser / lá-já-lá-iá / lá-iá-lá-iá-lá-iá / preta, preta pretinha / (...) / abre a porta e a janela / e vem ver o sol nascer...”


Preta Pretinha, predominantemente em alguns trechos, cria uma impressão cinematrográfica, imagética ou fanepéica, segundo definiu Augusto de Campos, de Pound: "Fanepéia: Uma lance de imagens sobre a imaginação visual"[6]. Veja se não é isso que ocorre nestes trechos:


"Abre a porta e a janela. E vem ver o sol nascer" e "Enquanto eu corria. Assim eu ía lhe, chamar!Enquanto corria a barca".



O terceiro sucesso é Tinindo Trincando com outra deliciosa interpretação de Baby e também o primor criativo do aqui abrasivo Pepeu Gomes, que conseguiu expressar em frases, riffes e solo, [7] desde o começo, o que está no título da música. Foi no limiar ao tinir e trincar na guitarra. Sobretudo é notável, nesse momento, a união e completude que esses dois -Pepeu e Baby- alcançaram; o que me faz concluir, nessa música, e em outras como A Menina Dança e especialmente Brasileirinho que eles eram os parceiros musicalmente perfeitos dentro de suas características [o que me lembra o que eu disse sobre João e Astrud Gilberto no primeiro artigo que escrevi aqui].

Swing de Campo Grande exemplifica bem, com a mistura de samba, partes de chorinho, junto à percussão, o trabalho orgânico do grupo em que, seja nessa ou noutras faixas, desde Baby (Afoché-triângulo, maracas) e Paulinho Boca de Cantor (Pandeiro) todos tocam. Destaco aqui também a "banda dentro da banda", os antes chamados Os Leifs[8] e que se tornaram conhecidos, posteriormente, como A Cor do Som que tocou e foi importante para vários outros artistas também como: Gal Costa - Tigresa com eles é a versão perfeita -; Gilberto Gil, Caetano, Bethânia - tocaram para os Doces Bárbaros -; Chico Buarque - destaque para Hino de Duran. [Ainda farei a seguinte enquete: Qual foi a maior banda de apóio da história? A Cor do Som; Vitória Régia - que tocou para Tim Maia no mítico Racional -; Som Imaginário - que participou de O Milagre dos Peixes com Milton Nascimento-; ou Spiders From Mars do albúm do David Bowie/Ziggy Stardust " The Rise an Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars.

Voltando ao disco [Concentre-se no disco!]...

A faixa-título é genericamente uma bossa nova [9] - gênero que não é somente a batida do violão e o canto característico mas também é inerente uma linguagem "leve" [10]. A canção assemelha-se à uma música de ninar[11] ou feita para acalmar criança, mas paradoxalmente [e isso que é bom! Pois estamos falando de música e poesia, portanto não há a necessidade de sermos monossêmicos] sugere algo de outra ordem nos vocábulos ou frases como: "bu-bu-bulindo" que apesar de se conectar à forma que alguns pais falarem às crianças recém-nascidas balbuciando; liga-se também à bulinar o que é reforçado, na música, pelo vocábulo, cama e algumas onomatopéias como "".

Chegamos agora, considerando, é claro, toda a unidade da obra, ao seu ponto mais elevado: Mistério do Planeta. Composta por Morais e Galvão a letra, como sempre deveria acontecer, mostra e/ou segue a orientação do título, e portanto, não é de fácil intelecção. Vou tentar iluminar alguns mistérios.
Os perfeitos arranjos iniciais, assim como todos do elepê, são de Moraes e Pepeu, e a interpretação de uma beleza lírica, aliás o momento é de um lirismo ímpar, fica à cargo de Paulinho Boca de Cantor. O Mistério explícito na música é aquele que se não encontrará nos livros, teorias e etc, ele só será encontrado vivendo;


"Vou mostrando como sou e vou sendo como posso. Jogando meu corpo no mundo, andando por todos os cantos. "


E nas três fases da vida, que é comum à todos [ou deveria] :


"O tríplice mistério do "stop", que eu passo por e sendo ele no que fica em cada um".


Todo esse clima é muito bem construído e sustentado, além dos citados arranjos, pelo baixo e percussão do pessoal do A Cor do Som, e culmina com um dos maiores solos de toda a história: cortante, limpo, preciso, sem "fritações", - Pepeu no auge dos seus 20 anos!.

A próxima A Menina Dança parece ter sido escrita para o jeitinho irreverente de Baby [claro que antes dela virar evangélica. Sim, isso mesmo, Evangélica!], a letra já foi interpretada como mostrando uma gravidez e também como de ter conotação sexual. As duas posições são válidas considerando versos como : "E dentro da menina, a menina dança" e "Mas eu mesma viro os olhinhos"; mas como diz outra música dos Novos Baianos [12] "Mãe pode ter e ser bebê e até pode ser Baby também", então, assim, contemplemos as duas proposições.

Caminhando já para a parte final do disco ouçamos Besta é Tú que, num primeiro momento, sempre se mosta como sendo não muito profunda e até mesmo uma brincadeira, mas num outro nível, parece nos alertar contra a realidade que, de maneira vária, apreendemos como normal. Contrariando essa primeira impressão, a canção tem algo de filosófico que me remete à Nietzsche, precisamente, Assim Falou Zaratustra, que nos seus discursos, o terceiro, Zaratustra profere algumas palavras, as quais transcrevo algumas agora, para uma melhor entendimento[13]:

DOS CRENTES EM ALÉM MUNDOS.


Um dia, Zaratustra elevou a sua ilusão mais além da vida dos homens, à maneira de todos os que crêem em além-mundos.Obra de um deus dolente e atormentado lhe pareceu então o mundo.“Sonho me parecia, e ficção de um deus: vapor colorido ante os olhos de um divino descontente.Bem e mal, alegria e desgosto, eu e tu, vapor colorido me parecia tudo ante os olhos criadores. O criador queria desviar de si mesmo o olhar... e criou o mundo.Para quem sofre é uma alegria esquecer o seu sofrimento. Alegria inebriante e esquecimento de si mesmo me pareceu um dia o mundo.Este mundo, o eternamente imperfeito, me pareceu um dia, imagem de uma eterna contradição, e uma alegria inebriante para o seu imperfeito criador.Da mesma maneira projetei eu também a minha ilusão mais para além da vida dos homens à semelhança de todos os crentes em além-mundos. Além dos homens, realmente?Ai, meus irmãos! Este deus que eu criei, era obra humana e humano delírio, como todos os deuses.Era homem, tão somente um fragmento de homem e de mim. Esse fantasma saía das minhas próprias cinzas e da minha própria chama, e nunca veio realmente do outro mundo.Que sucedeu, meus irmãos? Eu, que sofria, dominei-me; levei a minha própria cinza para a montanha; inventei para mim uma chama mais clara. E vede! O fantasma ausentou-se!Agora que estou curado, seria para mim um sofrimento e um tormento crer em semelhantes fantasmas. Assim falo eu aos que creem em além-mundos.Agora que estou curado, seria para mim um sofrimento e um tormento crer em semelhantes fantasmas. Assim falo eu aos que creem em além-mundos.Sofrimentos e incompetências; eis o que criou todos os além-mundos, e esse breve desvario da felicidade que só conhece quem mais sofre. A fadiga, que de um salto quer atingir o extremo, uma fadiga pobre e ignorante, que não quer ao menos um maior querer; foi ela que criou todos os deuses e todos os além-mundos" [...]
[Grifos Meus]

A instrumental Bilhete pra Didi, explicita toda essa mistura e versatilidade que venho ressaltando, frevo, rock, baião, todos aqui, em mais uma bela demonstração de pegada de Pepeu Gomes. [Ah! O Didi que aparece no nome da música é o baixista Didi Gomes, irmão de Pepeu, que participa nessa gravação e entrou definitivamente pra banda em 76].

Pra fechar a obra, temos um repeteco de Preta Pretinha, versão reduzida, 3 minutos e 25 segundos, que foi pensada para ser tocada nas rádios, pois a outra, de mais de 6 minutos e meio, era impensável de serem lá vinculadas, mas contrariando expectativas esta última fez o maior sucesso.

Espero que tenha sucitado, com essa exposição, a vontade de vocês ouvirem este álbum que, para limitá-lo à uma classificação é, para mim, o maior albúm de música popular brasileira de todos os tempos. Não só para mim, mas outros orgãos de comunicação, como a revista Rolling Stone, também têm este vaticínio. [vejam aqui]

Bem, descansem da [extensa] leitura.

Link para baixar o CD aqui.



E Bom Som!



Sofista Minimus.


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[1]. Novos, pois, velhos baianos se tratavam de Caetano, Gil, Gal e Bethânia.

[2]. Um compacto simples e outro duplo. Informações e datas no site "Oficial": http://www.sombras.com.br/novosb/novosb.htm

[3] . O próprio Moraes Moreira, no programa Ensaio da Tv Cultura, em 1973, afirmou que o grupo seria uma mistura de Jimi Hendrix com Jacob do Bandolim.

[4]. O Samba-exaltação, era um [sub-] gênero que se propunha a elevar as características sejam elas regionais ou de todo país. Teve talvez o seu maior expoente em Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, gravada na década de 30.

[5]. Luiz Galvão. Anos 70: Novos e Baianos.

[6]. Ezra Pound. ABC da Literatura. Introdução de Augusto de Campos.

[7]. Esse expressão da guitarra, presente, do início ao fim da música, conexa com a harmonia, é que me faz gostar, entre outras músicas, de Iron Man do Black Sabbath.

[8]. Pepeu Gomes e seu irmão o baterista Jorginho também faziam parte da banda, mas ao se casar com Baby, foi incorporado aos Novos Baianos.

[9]. Há também faixas, se não genuinamente bossanovísticas, fortemente influenciadas por esta como Quando Você Chegar até a satírica Sensibilidade da Bossa etc.

[10]. Ruy Castro. Chega de Saudade. pág. 321.

[11]. Bebel (Isabel), do Albúm Novos Baianos ou Linguagem do Alunte, composta por João Gilberto também é uma canção de ninar.

[12]. Sorrir e Cantar como Bahia do Albúm Novos Baianos Futebol Clube, de 1973.

[13]. Nietzsche. Assim Falava Zaratrusta. pag. 42.

domingo, 5 de abril de 2009

Poética, Aristóteles.


O primeiro livro que indico aqui não é de Literatura - me incomoda não ter uma palavra na língua portuguesa que diferencie Literatura Imaginativa, como Dichtung no alemão[1], da Literatura entendida como um conjunto de textos ou de saberes sobre algo - , mas a Poética de Aristóteles tem que, obrigatóriamente, estar aqui.

Este é o livro que reabilitou a poesia depois dela ter sido considerada imprópria por Platão n'A República; também aqui sistematizou-se, pela primeira vez, os gêneros literários em: épico, lírico e dramático[2], além de aproximar a literatura da noção de arte e considerar o "poeta" como portador de uma técnica - techne - ao contrário da crença anterior que os consideravam inspirados por Deuses/Deus.

O mais impressionante nessa leitura é a facilidade com que são expostos os conceitos, que são explorados na sua maioria em minúcias, em categorias bem delimitadas. Mas vale lembrar que este texto não foi concebido para ser um livro, é resultado do que poderíamos chamar hoje de um Plano de Aula para seus discípulos. A Poética chegou até nós em precário estado de conservação, mutilado em partes e sem um segundo livro que tratava da comédia, que o próprio Aristóteles faz menção em partes anteriores do texto e que, o sumiço, foi, e é; alvo de várias teorias, como a do romance O Nome da Rosa de Umberto Eco, de que este volume teria sido retirado pela igreja, por receio que assim como o filósofo tornou lícita a poesia, instituísse também o riso amplamente na sociedade. Dessa forma, no romance, o clérigo se defende: "O riso é a fraqueza, a corrupção, o amolecimento da nossa carne. É a diversão para o camponês, a licença para o alcoólico..." [3]. Não é de se estranhar esse poder de Aristóteles, e é muito interessante perceber a maneira que ele constrói a defesa do que chama de poesia e que podemos chamar, genericamente, de Literatura; vamos ao próprio texto:

"1. Falemos da poesia - dela mesma e das suas espécies, da efectividade de cada uma delas, da composição que se deve dar aos mitos, se quisermos que o poema resulte perfeito, e, ainda de quantos e quais os elementos de cada espécie e, semelhante, de tudo quanto pertence a esta indagação - começando, como é natural, pelas coisas primeiras."
[Tradução Eudoro de Sousa. Grifos meus]

Este paragráfo é modelar pra tentar demonstrar um pouco do método aristótelico neste livro. Olhamos primeiro pra seleção lexical. Veja o vocábulo grifado "espécies", aqui é o cientista que irá categorizar, a diante, as várias manifestações "literárias" para que resultem produções perfeitas, e para demonstrar como fazê-lo começará a sua exposição de onde é necessário que se faça, do início. Vejamos no texto: "começando, como é natural, pelas coisas primeiras." O princípio seria, então, definir a natureza da poesia, que é a imitação - mímesis ou representação - que foi um dos motivos que Platão considerou como negativo [4], mas Aristóteles entra no cerne do pensamento de seu mestre e assim diz que "o imitar é congênito [natural] no homem", assim o homem aprende as primeiras coisas e imitando até sente prazer . Ele não só se contentou em chancelar a poesia, também afirmou que ela possui um carácter mais filosófico que a História, pois esta trata do particular, posto que aquela trata do universal. Isso é muito significativo se considerarmos que Aristóteles é contemporâneo de Heródoto e Tucídites, grande historiadores.

Após classificá-la como mímesis Aristóteles a difere das outras artes pelo meio, modo e objetos que imitam. A poesia vale-se principalmente por meio da linguagem, os objetos imitados que são as ações humanas - de elevada ou de baixa índole - e os modos de imitar: o narrativo, o dramático - o teatro - "quer mediante todas as pessoas imitadas, operando e agindo elas mesmas" e outra forma "híbrida" -em primeira pessoa- que é chamado de gênero lírico mas que em muito se difere do que conhecemos como tal hoje. Pode parecer estranho mas também cabe à Aristóteles a primazia de se pensar as estórias - ele diz mitos ou fábulas- sendo unas e dotadas de unidades de ação - que ele distingue entre unidade histórica e poética - uma ação completa de começo, meio e fim. [Não, ele não está nos achando completos ignorantes, apenas está lecionando, brilhantemente, enquanto caminhamos e aprendemos mais!]. A diante, o filósofo faz considerações muito valiosas sobre a tragédia, mito trágico, reconhecimento e perípécia na tragédia , herói trágico, a catástrofe, em que ele considera Édipo Rei de Sófocles uma obra modelar, por ter alto grau de excelência nesses quesítos e, principalmente por, nesta obra, o reconhecimento e a peripécia ocorrerem juntas.

Bem a obra em si e no que ela transcende supera em tudo o que foi dito aqui, pois uma obra escrita no século III a.C, sem maiores pretenções, além da de ensinar, é [re]tomada amíude, seja para exautá-la ou mesmo para contestá-la, que mesmo chegando a nós de maneira inacabada ou incompleta, não pode ser colocada de lado e mesmo nos seus detratores aparece repetidas vezes mesmo que o autor dor desse juízo o coloque apenas como nota de rodapé.

Termino aqui com uma frase de W. D. Ross, professor, crítico e especialista em Aristóteles:

"A Poética está longe de ser uma teoria da poesia em geral, menos ainda das belas artes. No entanto contém talvez o maior número de idéias fecundas sobre a arte que qualquer outro livro[5]".




Boa Leitura!


Sofista Minimus.


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[1]. Ezra Pund. ABC da Literatura.

[2]. Platão n'A República formulou uma definição embrionária que chamou: de relato simples, o de imitação e outro que definiu como "ambos a um só tempo". [A República de Platão. Tradução de Jaime Guinsburg. Pág. 107].

[3]. Leia este livro. O Nome da Rosa de Umberto Eco. Ed. Nova Fronteira.

[4]. Para Platão, a imitação rebaixa os homens pois está afastadas da idéia em três graus. Para explicitar esta teoria dá o exemplo da cama; existe a idéia ou conceito de cama que habita no Mundo das Idéias e ela é perfeita, única e criada por Deus. O fabricante faz a cama baseada na idéia da cama, no entanto o poeta imita a cama que observou do fabricante, ou seja, faz uma cópia da cópia, um simulacro da realidade. Platão também afirma que a poesia, por expor más representações de caracteres de deuses e homens, por exemplo, corrompe os jovens e outras pessoas, portanto a poesia seria apenas para alguns iniciados. [Não estava de todo modo errado - sic!]
[5].David Ross, Aristóteles, trad. Luís Filipe Bragança S. S. Teixeira, Lisboa, Dom Quixote, 1987.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

A aposentadoria de Gabriel García Marquez.


A ocasião merece uma postagem melhor que essa, mas infelizmente estou sofrendo algumas limitações de tempo, que espero solucioná-las em breve. De toda forma não posso deixar ficar em branco o que foi noticiado ontem em várias agências de notícias [1]; que Gabriel García Marquez irá se aposentar, e assim, não escreverá mais livros. Apesar de não ter visto nenhuma declaração do próprio lembro-me de tê-lo visto dizer na Feira de livros de Guadalajara, em fevereiro, que "escrever livros dá trabalho". Numa declaração que me parecia que esse processo estava se tornando pesaroso ao longo desses anos todos. Eu ainda estou encarando com uma notícia de primeiro de Abril, torço para que seja, mas recebi a notícia com muito pesar e achei, a posteriori, que era inconcebível ele parar de escrever, numa espécie de "Como assim parar?!?!"... Mas o grande escritor, se assim decidiu, terá agora o seu merecido descanso. Já fez muito e não tem que continuar somente para suprir expectativas de leitores [minha!] e não por necessidade criativa ou coisa similar. Ele já nos iluminou muito ao, assim como Kant em relação à Hume, ser desperto para Literatura ao ler Metamorfoses de Kafka, e achar que poderia fazer o mesmo com seus personagens, criando assim a Literatura mágico-realista na América Latina.

Noticiou-se que ele também tem livros prontos ou semi-prontos que não sabe ainda se irá publicar. Entendo que cedo ou tarde, numa morte física futura [Ele é imortal!] irão ser publicados esse escritos. Mas quero que ele permaneça vivo por uns 100 anos mais.

Para quem não o conhece fica aqui a indicação de dois livros fundamentais: Cem Anos de Solidão. Que certamente está na minha paideuma e que, futuramente, farei uma análise aqui.

E General em seu Labirinto.

Bom descanso Gabo! e Boa Leitura pra vocês!




Sofista Minimus.

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[1].Jornal da Madeira: Clique aqui para ver.

IOL: Ver.

E G1: Aqui.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Ludus; E Hungria de 1954.




Sim, os jogos/esportes, em geral, farão parte da minha paideuma. Principalmente os que primam por virtudes como o senso coletivo, perseverança, obstinação, raça e beleza. Será que alguém aqui desconsideraria o Brasil da Copa de 70, que mesmo composto de estrelas - 5 camisas 10- conseguiu ser um time, no sentido de ter coletividade. Alguém esqueceu o Dream Team original de basquete, alguém esquece a cena de Gabrielle Andersen, maratonista suíça, que na Olimpíada de 1984 chegou extenuada ao final da prova mas não desistiu antes, mesmo sob riscos de vida, porque sabia que era capaz.
Você excluiria Mark Spitz, Larry Bird, Popov, Magic [Paula] Jonhson, Hotência, Borg, Navratilova, Mia Hamm, Sampras, Marta, Woods e etc. Não seriam dignas de exemplo às carreiras de Senna, Jordan, Ali e Pelé?. Quem não se assombrou e se encantou com o talento e beleza de Nádia Comaneci, que na experiência dos seus 14 anos, executou movimentos de rara perfeição, como se estes fossem rotineiros - e eram para ela!- e depois de arrebatar todo o mundo surpreendeu todos após perguntarem a esta o que ela queria, depois de ganhar o primeiro 10 da ginástica, ela simplesmente respondeu: "uma bicicleta".
Vejam uma dessas provas notas 10 da Nádia:

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[Detalhe: No placar apareceu 1.00 pois ele não fora programado para registrar a nota 10].

Portanto, o esporte além entretenimento, é fonte de conhecimento posto que apresenta exemplos humanos [por mais que alguns exemplos citados aqui parecerem estar acima dessa condição].
Justificada sua existência nesse espaço, vamos ao primeiro escolhido, que além de ilustrar algumas características já aludidas aqui, exemplifica, ao contrário do que possa parecer com a descrição acima, que as artes - considero os esportes também - não são alheias à vida, elas são a vida em toda as suas contradições e poeticidade.
Falarei da Seleção de Ouro da Hungria que durante o seu período vitorioso sofreu com várias guerras e um perídio sobre o regime ditatorial estalinista que desfacelou esta seleção no Levante de 1956. A história da seleção húngara se confunde com a daquele que é o principal astro dela, Ferenc Puskas, o menino de ouro da seleção de ouro, e com a da equipe-base da seleção o Kispest posteriormente rebatizado como Honved "Os defensores da Pátria".



A história de Puskas se relaciona com a configuração do Kispest/Honved, onde seu pai foi seu técnico, e que fazia – o clube - parte dos projetos do regime de recrutar promissores jogadores no que seria o embrião da seleção, alguns outros jogadores, majoritariamente reservas, jogariam no Ferencváros ou o MTK, tudo sob a supervisão de Gustav Sebes, técnico. Mais do que servir ao projeto do governo, eles formaram uma equipe/seleção de especial noção coletiva, jogadores que se conheciam desde os 3 anos - Puskas e Bozsik- moravam a poucos metros do estádio e conviveram, por algum tempo, com talentosos jogadores da geração anterior, que foram vice-campeões da Copa de 38 liderados por Sarosi, como Deri e Nemes, e além disso se aperfeiçoaram com métodos modernos de preparação e outros pouco ortodoxos [1]. A partir de 1948, Gustav Sebes ficou responsável direto pela seleção - era também representante do Ministério dos Esportes e dirigia o Comitê Olímpico Húngaro - e um dos responsáveis diretos pelo Kispest se tornar o Honved, o time do exército. A escolha natural seria o Ferencváros, mais popular no país, mas este tinha um passado ligado à associações fascistas e nacionalistas e inclusive um líder fascista em sua diretoria, o que estava totalmente em desacordo com o regime comunista.


Aos poucos Sebes foi recrutando os jogadores para o Honved; primeiro Lorant, zagueiro Central, Czibor, ponta-esquerda, Kocsis, centroavante, e o ponta-direita Budai, depois vieram o goleiro Grosics e o zagueiro pela esquerda Lantos. O Técnico junto com estes jogadores, assim como outros companheiros de seleção: Buzanszky, Zakarias e Hidegkuti, revolucionaram o futebol. Inspirados em sistemas táticos como o WM e técnicos como Hugo Meisl, que curiosamente criou o ferrolho defensivo na Áustria, Victorio Pozzo e Herbet Chapmam - que Sebes era fã, desenvolveram o 4-2-4, o sistema do centroavante recuado, que fou introduzido com muito sucesso no Brasil, posteriormente pelo técnico húngaro Bella Guttmann, que já havia treinado o Honved.




O 4-2-4 e a formação húngara.





Esta seleção entre 1950 e 56 perdeu apenas um jogo, o da final da Copa de 1954, que foi o seu jogo mais importante, mas conquistou o título Olímpico de 1952 que até hoje é inédito para o Brasil, sem contar com uma vitória em Wembley, contra a toda poderosa Inglaterra, por 6 a 3 entre outras conquistas mais.



Basta dizer, por enquanto, que a história dessa maginífica equipe é construída por vitórias, guerras e derrotas assim como a vida, mesmo que, por vezes, com toques menos ou mais dramáticos. Mas já falei muito sobre esa seleção, se quiserem saber mais - espero que sim!- leiam: "Puskas: uma lenda do futebol" escrito por Rogan Taylor e Klara Jamrich, editora DBA, São Paulo, 1998.

Deste livro retirei a maioria das informações aqui expostas. Ele aborda ainda todo este período; início, auge, derrota dessa geração na Copa de 54 e sofrimentos da guerra que acabou com esta Seleção de Ouro, mas a derrota e a guerra não acabaram com a carreira destes jogadores, pois alguns como Puskas, Hidekguti, Czibor e Kocsis tiveram grande êxito depois em grandes times como o Real Madrid, Fiorentina e Barcelona - os dois últimos.



Boa Leitura!



Vejam, logo abaixo, um vídeo com lances da vitória desta seleção sobre o Brasil [de Djalma Santos, Nílton Santos, Bauer, Julinho Botelho, Didi, Baltazar e etc!] por 4 a 2.

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Tenham um bom jogo!



Sofista Minimus.




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[1]. Os métodos "pouco ortodóxos" incluem apostar corrida contra os meios de transporte público da cidade, que Puskas e Bozsik faziam para melhorar o condicionamento físico e economizar dinheiro.




domingo, 15 de março de 2009

Charles Chaplin: Monsieur Verdoux.




É difícil escolher um filme de um dos maiores diretores de todos os tempos: Charles Chaplin. Aqui fica somente a indicação: Monsieur Verdoux [EUA/1947]. Neste filme, as referências que qualquer cinéfilo - ou não - facilmente caracterizariam como sendo de Chaplin, não estão presentes. Já não é mais Cinema Mudo, e não é estrelado pelo "vagabundo" Carlitos, o que por outro lado entendo, nesse momento, senão a maior, é pelo menos uma das maiores interpretações de Chaplin.
Mas engana-se quem pensa que Verdoux e Carlitos são personagens diametralmente opostas, como explicitou bem, o crítico francês André Bazin¹, "Verdoux é um Carlitos que ousaria desafiar o mundo". Carlitos é bem identificável, nesse filme, por exemplo, na cena em que Verdoux vai pescar com Annabella Bonheur [Martha Raye] onde cada vez que uma de suas várias tentativas de homicídio se frustram, se retrai num gestal muito próximo ao do "vagabundo".
Fazendo um panorama geral do filme e atentando não revelar informações que poderiam tirar a vontade de assistí-lo. O filme se desenrola pelos idos da década de 20, do século passado, em que Henri Verdoux, francês, bancário, desempregado após 30 anos de trabalho, passa a desenvolver maneiras - golpes, delitos e etc - para conseguir dinheiro e aplicar no mercado financeiro, mantendo a esposa paralítica e um filho, que não os vê frequentemente pois passa a maioria do seu tempo com sua vida de Barba Azul e suas outras mulheres [sim, outras mulheres] em atonitas viagens de um canto para outro.
É aqui que um aspecto técnico ganha destaque e caracteriza bem o cinema de um grandíssimo cineasta. Para ilustrar as sucessivas viagens, Chaplin intercala "takes" em que uma elipse com rodas de trem em movimento é combinada à música crescente e estridente, numa ótima solução para o filme já que as repetidas viagens representariam, se gravadas amiúde, um gasto excessivo.
Não bastando dirigir com brilhantismo o filme, escrever o roteiro - com Orson Welles - e compor a trilha sonora[!], a sua atuação merece todos os elogios. O seu gestual interpretativo, polidez, erudição, amor pela família estão entre os fatores de, mesmo cometendo várias infrações, contribuir para uma certa afeição entre a personagem e o público. Está aqui o grande questionamento do filme. Onde estaria o mal? Será que após os homicídios, quando Verdoux contava o dinheiro de suas mulheres, com uma destreza e velocidade assombrosa, alguém o repúdiou ou quis que ele sofresse alguma punição fatal ali? E sobre esse impasse é que, no final, após ser condenado, Verdoux discursa brilhantemente dizendo que a guerra foi muito mais cruel que ele, e sintetizou de forma lapidar “Se se mata um, é assassino. Se se mata milhões, vira-se herói”.
Fica justificada a indicação e a referência deste filme por, além da direção e atuação soberba de Chaplin, manter equilíbrio entre os dois pontos principais em arte para Horácio, deleitar - resultante do encantamento lúdico deste filme - e instruir - oriundo da crítica social.

Download do filme, por torrent, sem legendas, aqui: http://www.mininova.org/tor/1694813

E também, só como aperitivo, vejam o trailler do filme, aúdio em Inglês:

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Bom Vídeo!

Sofista Minimus.




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1. André Bazin. Chaplin. Jorge Zahar Editora. 1992.

terça-feira, 10 de março de 2009

Getz/Gilberto

Ficha Técnica:

Getz/Gilberto (Verve 521414).

Músicos: Stan Getz (Saxofone tenor), João Gilberto (Violão e Voz), Antonio Carlos "Tom" Jobim (piano), Sebastião Neto (Baixo), Milton Banana (Bateria) e Astrud Gilberto (Voz).
Gravado: Março de 1963.



A minha primeira indicação nesse espaço é o grande GETZ/GILBERTO – Live at Carnegie Hall, de 1963. É claro que escrevo, em parte, influênciado pelo cinqüentenário da Bossa Nova completados em 2.008, mas o fato é que este albúm possui qualidade inquestionável.

Gravado ao vivo, em Nova York, no legendário Carnegie Hall – o que contribuiu muito para criar a atmosfera intimista imprescindível ao violão de João – o albúm além dos artístas título, João Gilberto e saxofonista americano Stan Getz, credita também a cantora Astrud Gilberto e na produção e piano Antonio Carlos Jobim [!] o que já é garantia de boa música. Mas eles vão além, João Gilberto, virtuose com o violão e a sua batida que desenvolveu que e alcançou o mundo , nos imberbe num encantamento que faz tudo parecer muito fácil. Astrud Gilberto, simbiótica para a vida e o violão de João, cantando em português e inglês bela e singelamente. E um Tom Jobim mais contido, mas não menos brilhante, nos arranjos e acompanhamentos.

E por fim, contrastando com todos os outros ,Getz, e o seu Jazz “prolixo, exagerado” e agudo como asseveraram alguns. Mas aí está uma das grandes realizações desse trabalho, ao meu ver, a tentativa de conciliação de harmonias díspares.

Esse albúm possui uma “set-list” digna de coletânea Greatest Hits. Para iniciar o show a “standart” Garota de Ipanema [Creditada aqui também como Girl From Ipanema]. Com João iniciando no vocal, em português, e Astrud depois, em Inglês [1]. Doralice, de Caymmi , vem com a doçura e swingüe - ou “umbigada” como disse uma vez Moraes Moreira[2] - próprios de seu compositor retratando o encanto e o espanto de quem, de repente, se descobre apaixonado. P'ra Machucar Meu Coração é, até aqui, o momento em que Getz e Gilberto alcançam a sintonia, com um boa performance do saxofonista.

Seguindo o show, agora é a vez de Desafinado, estatuto de legalização da Bossa Nova e o seu canto característico – que não é propriamente desafinado. Astrud Gilberto volta belíssima em Corcovado que, para quem não se lembra, foi até tema de abertura de novela [“Laços de Família”] e que possui, em parte de seus versos, um de meus ideais de vida. Que por ser motivo e objeto da mais sublime vivência – o inefável [3] – transcrevo-o, pois qualquer comentário desse trecho seria insatisfatório.



“Um cantinho um violão

Esse Amor uma canção

Pra fazer feliz a quem se ama

Muita calma pra pensar

E ter tempo pra sonhar

Da janela ver se o Corcovado

E o Redentor que lindo.


Quero a vida sempre assim

Com você perto de mim

Até o apagar da velha chama”.


Para quem achar que esse albúm se limita somente à Bossa Nova ou as incursões Jazzísticas de Getz, o que não acontece, o samba pede sua vez em Só Danço Samba - letra de Vinícius de Moraes e música de Tom - que João que J. Gilberto conduz com uma simplicidade ímpar e conta com um excelente solo de Getz.

Na seqüência é a vez da cálida e da quase elegíaca O Grande Amor, aqui os agudos de Getz chegam ao ponto máximo o que gera, em mim, um princípio de desconforto, leve. Pra terminar, a etérea Vivo Sonhando que a persona configurada na canção vive sonhando e imaginando, em meio a idéias de estrelas, mar, céu e etc, se é correspondido no amor, o que além de ser obviamente importante, é motivo para a sua lamentação pois como o mesmo diz “pobre de mim que só sei te amar”.

Um ano depois, em 1964, o disco ganhou companhia e foi lançado o segundo volume. Este, que com participação maior de Getz, contém maiores apresentações Jazzísticas como em Grandfather's Waltz, Tonight I Shall Sleep with a Smile on My Face e o Blues em Stan's Blues. Mas também com a presença – ou volta do swingüe e de Caymmi- de Samba da Minha Terra. A destreza e excelência de João em Um Abraço no Bonfá e os quase exercícios “Bossanovísticos” de descontração Bim Bom e O Pato, ótimas.
Em Only Tust Your Heart e It Might as Well Be Spring há uma conciliação tão alta que quase resultou num outro gênero, se houvesse aqui uma ruptura ou intenção criadora do novo.
E finalizando, de vez agora, outra vez voltam aquelas que não poderiam faltar, ainda mais para um público estrangeiro Corcovado [Quiet Nights of Quiet Stars] e Garota de Ipanema [Girl From Ipanema] pra culminar com Astrud , em português, em Você e Eu.

A audição desse trabalho vale, senão pela exímia qualidade musical dos artistas, mas sim pela inversão de papéis e valores que aconteceu nesse momento. Como queria o Oswald de Andrade no seu "Manifesto Antropofágico", de 1928, que propunha a assimilação devoradora das idéias européias que resultaria numa criação nova e de exportação e inspiração para o mundo inteiro; aqui é o brasileiro João Gilberto criador da Bossa, que não o fez a partir do nada mas sim, segundo alguns, do Jazz (outros como Ruy Castro dizem que ele a Bossa Nova nada tinha de Jazz), cantando e tocando didaticamente, como também fez Jobim com Getz, o novo ritmo que virou influência para músicos americanos do quilate de Charles Byrd, Gerry Mulligan, Cannobal Adderley na época.

Você pode fazer o Download desse Cd nesse link:
CD1: Aqui.


CD2:Aqui.



E BOM SOM!


Sofista Minimus.


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1. No livro de Ruy Castro; Chega de Saudade, Companhia das Letras, 1990., pág.338. Há a informação que esta faixa foi gravada com 5 min e 15 segundos, contando "a parte de João, em português; a entrada de Astrud, em inglês; o solo de Getz; o solo de Tom ao piano; e a volta de Astrud com Getz para terminar". Posteriormente, o produtor e dono da Gravadora Verve, Tom Creed, exlcluiu a parte vocal de João, 1 min e 20 segundo, para ficar "boa" pra tocar no rádio.

2.Novos Baianos. Programa Ensaio. Tv Cultura, 1974. Música Ladeira da Praça.

3. Jaa Torrano. Teogonia: A Origem dos Deuses, de Hesíodo. Cap. 1. pág.11.

quinta-feira, 5 de março de 2009

O Carnaval.



Não, o carnaval na sua configuração atual não faria parte da minha paideuma (menos ainda de qualquer espécie de paidéia[1]). Esse Carnaval que conhecemos, principalmente, aquele mais divulgado na mídia, como os do sambôdromo do Rio e de São Paulo, perdeu a sua principal característica de festa do povo e para o povo. Excetuo aqui o carnaval de "bloco" destes mesmos estados e o carnaval pernambucano que, em essência, e culturalmente, é lindo. De todo modo, não sou especialista em carnaval. O que me interessa são algumas composições que, essas sim, mereceriam figurar em uma lista por sua qualidade inegável e por serem representantes "não desvirtuadas" deste espírito carnavalesco: os sambas-enredo e marchinhas.

Elenco aqui alguns que fazem parte da minha antologia: Aquarela Brasileira, composto por Silas de Oliveira, samba-enredo da Império Serrano, em 1964. Este, para mim, é o maior samba-enredo de todos os tempos. Por aliar um bom "andamento" e cadência à um certo didatismo, é uma verdadeira aula - geográfica, cultural- sobre o Brasil. Até hoje me arrepio somente por ouvir o início desse samba, seja a versão da Império ou mesmo do Martinho da Vila que o gravou depois. Letra logo abaixo:


AQUARELA BRASILEIRA

Vejam esta maravilha de cenário
É um episódio relicário
Que o artista num sonho genial
Escolheu para este carnaval
E o asfalto como passarela
Será a tela
Do Brasil em forma de aquarela
Passeando pelas cercanias do Amazonas
Conheci vastos seringais
No Pará, a ilha de Marajó
E a velha cabana do Timbó
Caminhando ainda um pouco mais
Deparei com lindos coqueirais
Estava no Ceará, terra de Irapoã
De Iracema e Tupã
Fiquei radiante de alegria
Quando cheguei à Bahia
Bahia de Castro Alves, do acarajé
Das noites de magia do candomblé
Depois de atravessar as matas do Ipu
Assisti em Pernambuco
À festa do frevo e do maracatu
Brasília tem o seu destaque
Na arte, na beleza e arquitetura
Feitiço de garoa pela serra
São Paulo engrandece a nossa terra
Do leste por todo o centroeste
Tudo é belo e tem lindo matiz
O Rio dos sambas e batucadas
De malandros e mulatas
De requebros febris

Brasil, essas nossas verdes matas
Cachoeiras e cascatas
De colorido sutil
E este lindo céu azul de anil
Emolduram em aquarela o meu Brasil

Lá rá rá rá rá
Lá lá lá lá iá

Ouça aqui!

Se tratando de Império Serrano há ainda um outro samba de rara beleza e de grande conhecimento público, apesar de poucos saberem sua origem. Estou falando do samba-enredo chamado A Lenda das Sereias Rainhas do Mar que foi muito popular no anos 70 na voz de Clara Nunes e depois com Marisa Monte, composto para o carnaval de 1976 por Vicente Mattos, Dinoel Sampaio, Arlindo Velloso.

A Lenda das Sereias Rainhas do Mar

O mar, misterioso mar
Que vem do horizonte
É o berço das sereias
Lendário e fascinante
Olha o canto da sereia
Ialaô, Okê, laloá
Em noite de lua cheia
Ouço a sereia cantar
E o luar sorrindo
Então se encanta
Com a doce melodia
Os madrigais vão despertar
Ela mora no mar
Ela brinca na areia
No balanço das ondas
A paz ela semeia (bis)
Toda a corte engalanada
Transformando o mar em flor
Vê o Império enamorado
Chegar à morada do amor
Oguntê, Marabô
Caiala e Sobá
Oloxum, Inaê (bis)
Janaína, Iemanjá
São Rainhas do Mar...
Clique aqui pra ouvir.

A Império também tem o quase impronunciável, e acho que onomatopáico, samba "Bumbum Praticumbum Prugurundum" [Beto sem Braço e Aluísio Machado]. O samba tem um sabor metalinguístico e fala sobre os acontecimentos do carnaval e sensações advindas dele. Ouça!

Limitando-se somente em sambas-enredo que fizeram sucesso também na música popular brasileira, a escola de samba carioca União da Ilha possui dois belos exemplares: O Amanhã e É Hoje.

O Amanhã, composta para o carnaval de 1978, foi regravada pela cantora Simone e possui aquele conhecido refrão:

"Como será o amanhã
Responda quem puder
O que irá me acontecer
O meu destino será como Deus quiser".
Ouça Aqui!


Em 1982, essa escola veio com outro grande samba que já foi regravado por Caetano Veloso e fez grande sucesso com Fernanda Abreu. Quem nunca ouviu ou cantou esses versos:

"É hoje o dia da alegria
É a tristeza, nem pode pensar em chegar
Diga espelho meu!
Diga espelho meu
Se há na avenida alguém mais feliz que eu".
Ouça!

O Salgueiro entra nessa lista com o samba "Peguei um Ita no Norte", de 1993, com os conhecidos versos: "Explode Coração! Na maior Felicidade! É lindo meu Salgueiro! Contagiando e sacudindo essa Cidade". Ouça aqui!

Outro antológico, e que foge à essa temática festiva, é o da escola de samba Em Cima da Hora, "Os Sertões", livremente inspirado no livro homônimo de Euclides da Cunha e na Guerra de Canudos. Ouça!

De temática social também é o samba-enredo da Mangueira, de 1988, "100 Anos de Liberdade, Realidade ou Ilusão" que como já expresso no título fala sobre a escravidão e questiona se ainda estamos, ou não, nesse período. Ouça Aqui!

Pra fechar, lembro aqui uma das marchas mais conhecidas do carnaval, principalmente quando falamos de Pernambuco: Vassourinhas [Mathias da Rocha e Joana Batista Ramos]. Se você pensa que não conhece essa marchinha, engana-se pois geralmente quando vêmos, em qualquer lugar, alguém dançando frevo é ao som dessa marcha. Clique aqui para ouvir.

Termino essa lista, contando com a participação de vocês, pra lembrar de mais sambas/marchinhas e etc significativas e marcantes do carnaval.

Bom Som!

Sofista Minimus.

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[1]. Paidéia é, segundo Jaeger, em livro de mesmo nome; o sistema educativo que visava formar o homem individual, e mais ainda, o cidadão.

domingo, 1 de março de 2009

Sobre a Verdade.



Não poderia começar esta seção, em que pretendo somar pensamentos gerais, sem abordar o leitmotiv que originou e desenvolveu a arte da filosofia: A Verdade. Poucas vezes atinamos conscientemente para saber o que é ou não verdade, mas sempre atribuimos à noção de verdadeiro ou falso às coisas, situações, relatos e etc. Segundo Marilena Chauí[1], a filosofia surgiu a medida que as narrativas míticas, que tinham a função didática de explicar a "origem de alguma coisa", passaram a ser insuficientes para tanto. Seguindo ainda a autora, essas narrativas eram ouvidas e tidas como verdadeiras pelos ouvintes; efeito causado pelo princípio de autoridade conferida à figura do rapsodo que era quem participou ou presenciou os fatos, ou ainda poderia ser escolhido pelos deuses para a tarefa de contar as histórias. E é nesse cenário que "nasce" a filosofia, com a preocupação - eminentemente platônica - pela busca da Verdade[2]. É essa busca pelo verdadeiro - o real - que fez o filósofo excluir, entre outras coisas, a poesia da sua cidade ideal, n'A República, porque ela é mímese ou imitação [ e em alguns casos de caracteres baixos]. Assim, toda criação presente no mundo - e até o mundo - era uma imitação da natureza verdadeira que existia no mundo das idéias, assim portanto, a poesia que imita essa natureza -que não já é a "Autêntica"- é um simulacro da realidade, falsa ou cópia de segunda mão.

Aristóteles até assume o conceito platônico mas reabilita novamente a poesia, efetivamente, por seu carácter mimético posto que a imitação é propria aos humanos, pois, para ele, adquirimos nossos primeiros conhecimentos ou hábitos imitando [3]. Outro argumento elencado por ele é por a poesia encerrar - e ser - mais filosófica que a História posto que esta trata do particular enquanto aquela trata do universal [4].
Neste ponto é que Aristóteles distancia-se do seu mestre, não só na questão da poesia mas abandonando a busca reta e excessiva da Verdade, aceitando como válida a verossimilhança, isto é, a aparência de verdade. Não é necessário, assim, narrar o que aconteceu de maneira exata - tarefa da História como disciplina - mas sim o acontecimento como provável, como poderia ter acontecido.

Górgias de Leontini, filósofo e professor de Retórica, ao tratar das questões da persuasão, diz que esta deve se ater de qualquer matéria, mas apenas como "doxa" (opinião) já que enquanto opinião pública , a "verdade social" - não a verdade em termos absolutos - "nos escapa" [5]. Segundo Manuel Alexandre Júnior, Górgias afirma que não conhecemos a verdade de maneira direta mas sim:

"uma visão da verdade, uma visão materializada em palavras e não a realidade em si mesma; pois é pela magia da palavra (logos)que pensamos e explicamos a realidade... mas não a realidade objetiva[6]".


A linguagem não é "um veículo neutro ou transparente de representação factual da realidade" como queriam os positivistas [7] e portanto, para Górgias, a filosofia deve abandonar a busca da Verdade absoluta.

Quem tem olhar parecido, mas sob um enfoque diferente é Nietzsche. Para ele "a verdade é um valor" e o homem "procura a verdade num mundo que não se contradiz, não se engana, não muda, um mundo verdadeiro"[8]. Essa afirmação resalta a necessidade que o homem tem de se sentir seguro, que se sentirá realizado "no mundo estável que não se contradiz" [Zakerla] e é o mundo em que estão todos os valores absolutos. Belo, Bom e Verdadeiro residem lá e são garantidos por Deus que com a afirmação bombástica: "Deus está morto", Nietzsche implode esse princípio de transcendência, de "além-mundo" redimencionando-nos de maneira nova no nosso cômodo habitat.

Esse percurso todo foi feito aqui para demonstrar o problema e as implicações de se buscar a Verdade de forma absoluta sendo que, para nós hoje, como diz Chauí [9], é muito difícil essa busca e mesmo conhecê-la, levando-se em conta que vivemos num mundo que recebe informações de todos os lados por jornais, televisão, internet e etc e acreditamos, na maioria das vezes, que estamos recebendo informações verdadeiras. Mas, para testar a validade da afirmação, seria suficiente, segundo Chauí ainda, que alguém lesse vários jornais, assistisse telejornais diferentes [e] comparando os noticiários diversos, para perceber que as mesmas "não se batem" e que existem "várias verdades".

A verdade, como diz Nietzsche, é um valor e a posse desse valor emana poder em nossa sociedade, como acontece no livro 1984, de George Orwell. O poder vigente - nesta obra - cria a Novilígua em que as palavras que são inventadas estão a favor do estado instituído e destrói outras palavras que poderia fazer a verdade aparecer. Isto é, a posse da verdade e o uso da mentira eram usadas para manter o "status quo" e assim toda a sociedade submissa. Devemos observar e tentar perceber se 1984 é ficção, ou realmente existe, e de que forma a Verdade é usada nesse nosso mundo.




Bom Ócio!



Sofista Minimus.

Post Scriptum: Não é esse o espaço onde farei mas fica aqui tambem a indicação do livro 1984 de George Orwell, pseudônimo de Eric Arthur Blain.


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[1]. Marilena Chauí. Convite à Filosofia. Ed. Ática. São Paulo. 2000. pág. 32.

[2]. Vale lembrar aqui que estou, em parte, desconsiderando uma contenda em vigência na época, a disputa pelo o que viria ser considerado posteriormente como Filosofia, entre Platão e Isócrates, com a vitória do primeiro, que só tomei conhecimento tempos atrás lendo - leitura ainda incompleta - uma brilhante tese de doutoramento de Marcos Sidnei Pagotto-Euzébio intitulada "O Aluno Ideal e o Mestre Perfeito: o Agón entre Platão e Isócrates", defendida na FEUSP.

[3]. Aristóteles. Poética. Cap IV.
[4]. Aristóteles. Poética. Cap IX.
[5]. Manuel Alexandre Júnior. Retórica um saber Interdisciplinar. Pág, 3.
[6]. Idem. Ibidem.
[7]. Alcir Pécora. Máquina dos Gêneros. pág.11.
[8]. Luciana Zaterka. Nietzsche: A Verdade como ficção. pág. 84.
[9]. Marilena Chauí. Convite à Filosofia.