sexta-feira, 20 de março de 2009

Ludus; E Hungria de 1954.




Sim, os jogos/esportes, em geral, farão parte da minha paideuma. Principalmente os que primam por virtudes como o senso coletivo, perseverança, obstinação, raça e beleza. Será que alguém aqui desconsideraria o Brasil da Copa de 70, que mesmo composto de estrelas - 5 camisas 10- conseguiu ser um time, no sentido de ter coletividade. Alguém esqueceu o Dream Team original de basquete, alguém esquece a cena de Gabrielle Andersen, maratonista suíça, que na Olimpíada de 1984 chegou extenuada ao final da prova mas não desistiu antes, mesmo sob riscos de vida, porque sabia que era capaz.
Você excluiria Mark Spitz, Larry Bird, Popov, Magic [Paula] Jonhson, Hotência, Borg, Navratilova, Mia Hamm, Sampras, Marta, Woods e etc. Não seriam dignas de exemplo às carreiras de Senna, Jordan, Ali e Pelé?. Quem não se assombrou e se encantou com o talento e beleza de Nádia Comaneci, que na experiência dos seus 14 anos, executou movimentos de rara perfeição, como se estes fossem rotineiros - e eram para ela!- e depois de arrebatar todo o mundo surpreendeu todos após perguntarem a esta o que ela queria, depois de ganhar o primeiro 10 da ginástica, ela simplesmente respondeu: "uma bicicleta".
Vejam uma dessas provas notas 10 da Nádia:

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[Detalhe: No placar apareceu 1.00 pois ele não fora programado para registrar a nota 10].

Portanto, o esporte além entretenimento, é fonte de conhecimento posto que apresenta exemplos humanos [por mais que alguns exemplos citados aqui parecerem estar acima dessa condição].
Justificada sua existência nesse espaço, vamos ao primeiro escolhido, que além de ilustrar algumas características já aludidas aqui, exemplifica, ao contrário do que possa parecer com a descrição acima, que as artes - considero os esportes também - não são alheias à vida, elas são a vida em toda as suas contradições e poeticidade.
Falarei da Seleção de Ouro da Hungria que durante o seu período vitorioso sofreu com várias guerras e um perídio sobre o regime ditatorial estalinista que desfacelou esta seleção no Levante de 1956. A história da seleção húngara se confunde com a daquele que é o principal astro dela, Ferenc Puskas, o menino de ouro da seleção de ouro, e com a da equipe-base da seleção o Kispest posteriormente rebatizado como Honved "Os defensores da Pátria".



A história de Puskas se relaciona com a configuração do Kispest/Honved, onde seu pai foi seu técnico, e que fazia – o clube - parte dos projetos do regime de recrutar promissores jogadores no que seria o embrião da seleção, alguns outros jogadores, majoritariamente reservas, jogariam no Ferencváros ou o MTK, tudo sob a supervisão de Gustav Sebes, técnico. Mais do que servir ao projeto do governo, eles formaram uma equipe/seleção de especial noção coletiva, jogadores que se conheciam desde os 3 anos - Puskas e Bozsik- moravam a poucos metros do estádio e conviveram, por algum tempo, com talentosos jogadores da geração anterior, que foram vice-campeões da Copa de 38 liderados por Sarosi, como Deri e Nemes, e além disso se aperfeiçoaram com métodos modernos de preparação e outros pouco ortodoxos [1]. A partir de 1948, Gustav Sebes ficou responsável direto pela seleção - era também representante do Ministério dos Esportes e dirigia o Comitê Olímpico Húngaro - e um dos responsáveis diretos pelo Kispest se tornar o Honved, o time do exército. A escolha natural seria o Ferencváros, mais popular no país, mas este tinha um passado ligado à associações fascistas e nacionalistas e inclusive um líder fascista em sua diretoria, o que estava totalmente em desacordo com o regime comunista.


Aos poucos Sebes foi recrutando os jogadores para o Honved; primeiro Lorant, zagueiro Central, Czibor, ponta-esquerda, Kocsis, centroavante, e o ponta-direita Budai, depois vieram o goleiro Grosics e o zagueiro pela esquerda Lantos. O Técnico junto com estes jogadores, assim como outros companheiros de seleção: Buzanszky, Zakarias e Hidegkuti, revolucionaram o futebol. Inspirados em sistemas táticos como o WM e técnicos como Hugo Meisl, que curiosamente criou o ferrolho defensivo na Áustria, Victorio Pozzo e Herbet Chapmam - que Sebes era fã, desenvolveram o 4-2-4, o sistema do centroavante recuado, que fou introduzido com muito sucesso no Brasil, posteriormente pelo técnico húngaro Bella Guttmann, que já havia treinado o Honved.




O 4-2-4 e a formação húngara.





Esta seleção entre 1950 e 56 perdeu apenas um jogo, o da final da Copa de 1954, que foi o seu jogo mais importante, mas conquistou o título Olímpico de 1952 que até hoje é inédito para o Brasil, sem contar com uma vitória em Wembley, contra a toda poderosa Inglaterra, por 6 a 3 entre outras conquistas mais.



Basta dizer, por enquanto, que a história dessa maginífica equipe é construída por vitórias, guerras e derrotas assim como a vida, mesmo que, por vezes, com toques menos ou mais dramáticos. Mas já falei muito sobre esa seleção, se quiserem saber mais - espero que sim!- leiam: "Puskas: uma lenda do futebol" escrito por Rogan Taylor e Klara Jamrich, editora DBA, São Paulo, 1998.

Deste livro retirei a maioria das informações aqui expostas. Ele aborda ainda todo este período; início, auge, derrota dessa geração na Copa de 54 e sofrimentos da guerra que acabou com esta Seleção de Ouro, mas a derrota e a guerra não acabaram com a carreira destes jogadores, pois alguns como Puskas, Hidekguti, Czibor e Kocsis tiveram grande êxito depois em grandes times como o Real Madrid, Fiorentina e Barcelona - os dois últimos.



Boa Leitura!



Vejam, logo abaixo, um vídeo com lances da vitória desta seleção sobre o Brasil [de Djalma Santos, Nílton Santos, Bauer, Julinho Botelho, Didi, Baltazar e etc!] por 4 a 2.

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Tenham um bom jogo!



Sofista Minimus.




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[1]. Os métodos "pouco ortodóxos" incluem apostar corrida contra os meios de transporte público da cidade, que Puskas e Bozsik faziam para melhorar o condicionamento físico e economizar dinheiro.




domingo, 15 de março de 2009

Charles Chaplin: Monsieur Verdoux.




É difícil escolher um filme de um dos maiores diretores de todos os tempos: Charles Chaplin. Aqui fica somente a indicação: Monsieur Verdoux [EUA/1947]. Neste filme, as referências que qualquer cinéfilo - ou não - facilmente caracterizariam como sendo de Chaplin, não estão presentes. Já não é mais Cinema Mudo, e não é estrelado pelo "vagabundo" Carlitos, o que por outro lado entendo, nesse momento, senão a maior, é pelo menos uma das maiores interpretações de Chaplin.
Mas engana-se quem pensa que Verdoux e Carlitos são personagens diametralmente opostas, como explicitou bem, o crítico francês André Bazin¹, "Verdoux é um Carlitos que ousaria desafiar o mundo". Carlitos é bem identificável, nesse filme, por exemplo, na cena em que Verdoux vai pescar com Annabella Bonheur [Martha Raye] onde cada vez que uma de suas várias tentativas de homicídio se frustram, se retrai num gestal muito próximo ao do "vagabundo".
Fazendo um panorama geral do filme e atentando não revelar informações que poderiam tirar a vontade de assistí-lo. O filme se desenrola pelos idos da década de 20, do século passado, em que Henri Verdoux, francês, bancário, desempregado após 30 anos de trabalho, passa a desenvolver maneiras - golpes, delitos e etc - para conseguir dinheiro e aplicar no mercado financeiro, mantendo a esposa paralítica e um filho, que não os vê frequentemente pois passa a maioria do seu tempo com sua vida de Barba Azul e suas outras mulheres [sim, outras mulheres] em atonitas viagens de um canto para outro.
É aqui que um aspecto técnico ganha destaque e caracteriza bem o cinema de um grandíssimo cineasta. Para ilustrar as sucessivas viagens, Chaplin intercala "takes" em que uma elipse com rodas de trem em movimento é combinada à música crescente e estridente, numa ótima solução para o filme já que as repetidas viagens representariam, se gravadas amiúde, um gasto excessivo.
Não bastando dirigir com brilhantismo o filme, escrever o roteiro - com Orson Welles - e compor a trilha sonora[!], a sua atuação merece todos os elogios. O seu gestual interpretativo, polidez, erudição, amor pela família estão entre os fatores de, mesmo cometendo várias infrações, contribuir para uma certa afeição entre a personagem e o público. Está aqui o grande questionamento do filme. Onde estaria o mal? Será que após os homicídios, quando Verdoux contava o dinheiro de suas mulheres, com uma destreza e velocidade assombrosa, alguém o repúdiou ou quis que ele sofresse alguma punição fatal ali? E sobre esse impasse é que, no final, após ser condenado, Verdoux discursa brilhantemente dizendo que a guerra foi muito mais cruel que ele, e sintetizou de forma lapidar “Se se mata um, é assassino. Se se mata milhões, vira-se herói”.
Fica justificada a indicação e a referência deste filme por, além da direção e atuação soberba de Chaplin, manter equilíbrio entre os dois pontos principais em arte para Horácio, deleitar - resultante do encantamento lúdico deste filme - e instruir - oriundo da crítica social.

Download do filme, por torrent, sem legendas, aqui: http://www.mininova.org/tor/1694813

E também, só como aperitivo, vejam o trailler do filme, aúdio em Inglês:

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Bom Vídeo!

Sofista Minimus.




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1. André Bazin. Chaplin. Jorge Zahar Editora. 1992.

terça-feira, 10 de março de 2009

Getz/Gilberto

Ficha Técnica:

Getz/Gilberto (Verve 521414).

Músicos: Stan Getz (Saxofone tenor), João Gilberto (Violão e Voz), Antonio Carlos "Tom" Jobim (piano), Sebastião Neto (Baixo), Milton Banana (Bateria) e Astrud Gilberto (Voz).
Gravado: Março de 1963.



A minha primeira indicação nesse espaço é o grande GETZ/GILBERTO – Live at Carnegie Hall, de 1963. É claro que escrevo, em parte, influênciado pelo cinqüentenário da Bossa Nova completados em 2.008, mas o fato é que este albúm possui qualidade inquestionável.

Gravado ao vivo, em Nova York, no legendário Carnegie Hall – o que contribuiu muito para criar a atmosfera intimista imprescindível ao violão de João – o albúm além dos artístas título, João Gilberto e saxofonista americano Stan Getz, credita também a cantora Astrud Gilberto e na produção e piano Antonio Carlos Jobim [!] o que já é garantia de boa música. Mas eles vão além, João Gilberto, virtuose com o violão e a sua batida que desenvolveu que e alcançou o mundo , nos imberbe num encantamento que faz tudo parecer muito fácil. Astrud Gilberto, simbiótica para a vida e o violão de João, cantando em português e inglês bela e singelamente. E um Tom Jobim mais contido, mas não menos brilhante, nos arranjos e acompanhamentos.

E por fim, contrastando com todos os outros ,Getz, e o seu Jazz “prolixo, exagerado” e agudo como asseveraram alguns. Mas aí está uma das grandes realizações desse trabalho, ao meu ver, a tentativa de conciliação de harmonias díspares.

Esse albúm possui uma “set-list” digna de coletânea Greatest Hits. Para iniciar o show a “standart” Garota de Ipanema [Creditada aqui também como Girl From Ipanema]. Com João iniciando no vocal, em português, e Astrud depois, em Inglês [1]. Doralice, de Caymmi , vem com a doçura e swingüe - ou “umbigada” como disse uma vez Moraes Moreira[2] - próprios de seu compositor retratando o encanto e o espanto de quem, de repente, se descobre apaixonado. P'ra Machucar Meu Coração é, até aqui, o momento em que Getz e Gilberto alcançam a sintonia, com um boa performance do saxofonista.

Seguindo o show, agora é a vez de Desafinado, estatuto de legalização da Bossa Nova e o seu canto característico – que não é propriamente desafinado. Astrud Gilberto volta belíssima em Corcovado que, para quem não se lembra, foi até tema de abertura de novela [“Laços de Família”] e que possui, em parte de seus versos, um de meus ideais de vida. Que por ser motivo e objeto da mais sublime vivência – o inefável [3] – transcrevo-o, pois qualquer comentário desse trecho seria insatisfatório.



“Um cantinho um violão

Esse Amor uma canção

Pra fazer feliz a quem se ama

Muita calma pra pensar

E ter tempo pra sonhar

Da janela ver se o Corcovado

E o Redentor que lindo.


Quero a vida sempre assim

Com você perto de mim

Até o apagar da velha chama”.


Para quem achar que esse albúm se limita somente à Bossa Nova ou as incursões Jazzísticas de Getz, o que não acontece, o samba pede sua vez em Só Danço Samba - letra de Vinícius de Moraes e música de Tom - que João que J. Gilberto conduz com uma simplicidade ímpar e conta com um excelente solo de Getz.

Na seqüência é a vez da cálida e da quase elegíaca O Grande Amor, aqui os agudos de Getz chegam ao ponto máximo o que gera, em mim, um princípio de desconforto, leve. Pra terminar, a etérea Vivo Sonhando que a persona configurada na canção vive sonhando e imaginando, em meio a idéias de estrelas, mar, céu e etc, se é correspondido no amor, o que além de ser obviamente importante, é motivo para a sua lamentação pois como o mesmo diz “pobre de mim que só sei te amar”.

Um ano depois, em 1964, o disco ganhou companhia e foi lançado o segundo volume. Este, que com participação maior de Getz, contém maiores apresentações Jazzísticas como em Grandfather's Waltz, Tonight I Shall Sleep with a Smile on My Face e o Blues em Stan's Blues. Mas também com a presença – ou volta do swingüe e de Caymmi- de Samba da Minha Terra. A destreza e excelência de João em Um Abraço no Bonfá e os quase exercícios “Bossanovísticos” de descontração Bim Bom e O Pato, ótimas.
Em Only Tust Your Heart e It Might as Well Be Spring há uma conciliação tão alta que quase resultou num outro gênero, se houvesse aqui uma ruptura ou intenção criadora do novo.
E finalizando, de vez agora, outra vez voltam aquelas que não poderiam faltar, ainda mais para um público estrangeiro Corcovado [Quiet Nights of Quiet Stars] e Garota de Ipanema [Girl From Ipanema] pra culminar com Astrud , em português, em Você e Eu.

A audição desse trabalho vale, senão pela exímia qualidade musical dos artistas, mas sim pela inversão de papéis e valores que aconteceu nesse momento. Como queria o Oswald de Andrade no seu "Manifesto Antropofágico", de 1928, que propunha a assimilação devoradora das idéias européias que resultaria numa criação nova e de exportação e inspiração para o mundo inteiro; aqui é o brasileiro João Gilberto criador da Bossa, que não o fez a partir do nada mas sim, segundo alguns, do Jazz (outros como Ruy Castro dizem que ele a Bossa Nova nada tinha de Jazz), cantando e tocando didaticamente, como também fez Jobim com Getz, o novo ritmo que virou influência para músicos americanos do quilate de Charles Byrd, Gerry Mulligan, Cannobal Adderley na época.

Você pode fazer o Download desse Cd nesse link:
CD1: Aqui.


CD2:Aqui.



E BOM SOM!


Sofista Minimus.


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1. No livro de Ruy Castro; Chega de Saudade, Companhia das Letras, 1990., pág.338. Há a informação que esta faixa foi gravada com 5 min e 15 segundos, contando "a parte de João, em português; a entrada de Astrud, em inglês; o solo de Getz; o solo de Tom ao piano; e a volta de Astrud com Getz para terminar". Posteriormente, o produtor e dono da Gravadora Verve, Tom Creed, exlcluiu a parte vocal de João, 1 min e 20 segundo, para ficar "boa" pra tocar no rádio.

2.Novos Baianos. Programa Ensaio. Tv Cultura, 1974. Música Ladeira da Praça.

3. Jaa Torrano. Teogonia: A Origem dos Deuses, de Hesíodo. Cap. 1. pág.11.

quinta-feira, 5 de março de 2009

O Carnaval.



Não, o carnaval na sua configuração atual não faria parte da minha paideuma (menos ainda de qualquer espécie de paidéia[1]). Esse Carnaval que conhecemos, principalmente, aquele mais divulgado na mídia, como os do sambôdromo do Rio e de São Paulo, perdeu a sua principal característica de festa do povo e para o povo. Excetuo aqui o carnaval de "bloco" destes mesmos estados e o carnaval pernambucano que, em essência, e culturalmente, é lindo. De todo modo, não sou especialista em carnaval. O que me interessa são algumas composições que, essas sim, mereceriam figurar em uma lista por sua qualidade inegável e por serem representantes "não desvirtuadas" deste espírito carnavalesco: os sambas-enredo e marchinhas.

Elenco aqui alguns que fazem parte da minha antologia: Aquarela Brasileira, composto por Silas de Oliveira, samba-enredo da Império Serrano, em 1964. Este, para mim, é o maior samba-enredo de todos os tempos. Por aliar um bom "andamento" e cadência à um certo didatismo, é uma verdadeira aula - geográfica, cultural- sobre o Brasil. Até hoje me arrepio somente por ouvir o início desse samba, seja a versão da Império ou mesmo do Martinho da Vila que o gravou depois. Letra logo abaixo:


AQUARELA BRASILEIRA

Vejam esta maravilha de cenário
É um episódio relicário
Que o artista num sonho genial
Escolheu para este carnaval
E o asfalto como passarela
Será a tela
Do Brasil em forma de aquarela
Passeando pelas cercanias do Amazonas
Conheci vastos seringais
No Pará, a ilha de Marajó
E a velha cabana do Timbó
Caminhando ainda um pouco mais
Deparei com lindos coqueirais
Estava no Ceará, terra de Irapoã
De Iracema e Tupã
Fiquei radiante de alegria
Quando cheguei à Bahia
Bahia de Castro Alves, do acarajé
Das noites de magia do candomblé
Depois de atravessar as matas do Ipu
Assisti em Pernambuco
À festa do frevo e do maracatu
Brasília tem o seu destaque
Na arte, na beleza e arquitetura
Feitiço de garoa pela serra
São Paulo engrandece a nossa terra
Do leste por todo o centroeste
Tudo é belo e tem lindo matiz
O Rio dos sambas e batucadas
De malandros e mulatas
De requebros febris

Brasil, essas nossas verdes matas
Cachoeiras e cascatas
De colorido sutil
E este lindo céu azul de anil
Emolduram em aquarela o meu Brasil

Lá rá rá rá rá
Lá lá lá lá iá

Ouça aqui!

Se tratando de Império Serrano há ainda um outro samba de rara beleza e de grande conhecimento público, apesar de poucos saberem sua origem. Estou falando do samba-enredo chamado A Lenda das Sereias Rainhas do Mar que foi muito popular no anos 70 na voz de Clara Nunes e depois com Marisa Monte, composto para o carnaval de 1976 por Vicente Mattos, Dinoel Sampaio, Arlindo Velloso.

A Lenda das Sereias Rainhas do Mar

O mar, misterioso mar
Que vem do horizonte
É o berço das sereias
Lendário e fascinante
Olha o canto da sereia
Ialaô, Okê, laloá
Em noite de lua cheia
Ouço a sereia cantar
E o luar sorrindo
Então se encanta
Com a doce melodia
Os madrigais vão despertar
Ela mora no mar
Ela brinca na areia
No balanço das ondas
A paz ela semeia (bis)
Toda a corte engalanada
Transformando o mar em flor
Vê o Império enamorado
Chegar à morada do amor
Oguntê, Marabô
Caiala e Sobá
Oloxum, Inaê (bis)
Janaína, Iemanjá
São Rainhas do Mar...
Clique aqui pra ouvir.

A Império também tem o quase impronunciável, e acho que onomatopáico, samba "Bumbum Praticumbum Prugurundum" [Beto sem Braço e Aluísio Machado]. O samba tem um sabor metalinguístico e fala sobre os acontecimentos do carnaval e sensações advindas dele. Ouça!

Limitando-se somente em sambas-enredo que fizeram sucesso também na música popular brasileira, a escola de samba carioca União da Ilha possui dois belos exemplares: O Amanhã e É Hoje.

O Amanhã, composta para o carnaval de 1978, foi regravada pela cantora Simone e possui aquele conhecido refrão:

"Como será o amanhã
Responda quem puder
O que irá me acontecer
O meu destino será como Deus quiser".
Ouça Aqui!


Em 1982, essa escola veio com outro grande samba que já foi regravado por Caetano Veloso e fez grande sucesso com Fernanda Abreu. Quem nunca ouviu ou cantou esses versos:

"É hoje o dia da alegria
É a tristeza, nem pode pensar em chegar
Diga espelho meu!
Diga espelho meu
Se há na avenida alguém mais feliz que eu".
Ouça!

O Salgueiro entra nessa lista com o samba "Peguei um Ita no Norte", de 1993, com os conhecidos versos: "Explode Coração! Na maior Felicidade! É lindo meu Salgueiro! Contagiando e sacudindo essa Cidade". Ouça aqui!

Outro antológico, e que foge à essa temática festiva, é o da escola de samba Em Cima da Hora, "Os Sertões", livremente inspirado no livro homônimo de Euclides da Cunha e na Guerra de Canudos. Ouça!

De temática social também é o samba-enredo da Mangueira, de 1988, "100 Anos de Liberdade, Realidade ou Ilusão" que como já expresso no título fala sobre a escravidão e questiona se ainda estamos, ou não, nesse período. Ouça Aqui!

Pra fechar, lembro aqui uma das marchas mais conhecidas do carnaval, principalmente quando falamos de Pernambuco: Vassourinhas [Mathias da Rocha e Joana Batista Ramos]. Se você pensa que não conhece essa marchinha, engana-se pois geralmente quando vêmos, em qualquer lugar, alguém dançando frevo é ao som dessa marcha. Clique aqui para ouvir.

Termino essa lista, contando com a participação de vocês, pra lembrar de mais sambas/marchinhas e etc significativas e marcantes do carnaval.

Bom Som!

Sofista Minimus.

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[1]. Paidéia é, segundo Jaeger, em livro de mesmo nome; o sistema educativo que visava formar o homem individual, e mais ainda, o cidadão.

domingo, 1 de março de 2009

Sobre a Verdade.



Não poderia começar esta seção, em que pretendo somar pensamentos gerais, sem abordar o leitmotiv que originou e desenvolveu a arte da filosofia: A Verdade. Poucas vezes atinamos conscientemente para saber o que é ou não verdade, mas sempre atribuimos à noção de verdadeiro ou falso às coisas, situações, relatos e etc. Segundo Marilena Chauí[1], a filosofia surgiu a medida que as narrativas míticas, que tinham a função didática de explicar a "origem de alguma coisa", passaram a ser insuficientes para tanto. Seguindo ainda a autora, essas narrativas eram ouvidas e tidas como verdadeiras pelos ouvintes; efeito causado pelo princípio de autoridade conferida à figura do rapsodo que era quem participou ou presenciou os fatos, ou ainda poderia ser escolhido pelos deuses para a tarefa de contar as histórias. E é nesse cenário que "nasce" a filosofia, com a preocupação - eminentemente platônica - pela busca da Verdade[2]. É essa busca pelo verdadeiro - o real - que fez o filósofo excluir, entre outras coisas, a poesia da sua cidade ideal, n'A República, porque ela é mímese ou imitação [ e em alguns casos de caracteres baixos]. Assim, toda criação presente no mundo - e até o mundo - era uma imitação da natureza verdadeira que existia no mundo das idéias, assim portanto, a poesia que imita essa natureza -que não já é a "Autêntica"- é um simulacro da realidade, falsa ou cópia de segunda mão.

Aristóteles até assume o conceito platônico mas reabilita novamente a poesia, efetivamente, por seu carácter mimético posto que a imitação é propria aos humanos, pois, para ele, adquirimos nossos primeiros conhecimentos ou hábitos imitando [3]. Outro argumento elencado por ele é por a poesia encerrar - e ser - mais filosófica que a História posto que esta trata do particular enquanto aquela trata do universal [4].
Neste ponto é que Aristóteles distancia-se do seu mestre, não só na questão da poesia mas abandonando a busca reta e excessiva da Verdade, aceitando como válida a verossimilhança, isto é, a aparência de verdade. Não é necessário, assim, narrar o que aconteceu de maneira exata - tarefa da História como disciplina - mas sim o acontecimento como provável, como poderia ter acontecido.

Górgias de Leontini, filósofo e professor de Retórica, ao tratar das questões da persuasão, diz que esta deve se ater de qualquer matéria, mas apenas como "doxa" (opinião) já que enquanto opinião pública , a "verdade social" - não a verdade em termos absolutos - "nos escapa" [5]. Segundo Manuel Alexandre Júnior, Górgias afirma que não conhecemos a verdade de maneira direta mas sim:

"uma visão da verdade, uma visão materializada em palavras e não a realidade em si mesma; pois é pela magia da palavra (logos)que pensamos e explicamos a realidade... mas não a realidade objetiva[6]".


A linguagem não é "um veículo neutro ou transparente de representação factual da realidade" como queriam os positivistas [7] e portanto, para Górgias, a filosofia deve abandonar a busca da Verdade absoluta.

Quem tem olhar parecido, mas sob um enfoque diferente é Nietzsche. Para ele "a verdade é um valor" e o homem "procura a verdade num mundo que não se contradiz, não se engana, não muda, um mundo verdadeiro"[8]. Essa afirmação resalta a necessidade que o homem tem de se sentir seguro, que se sentirá realizado "no mundo estável que não se contradiz" [Zakerla] e é o mundo em que estão todos os valores absolutos. Belo, Bom e Verdadeiro residem lá e são garantidos por Deus que com a afirmação bombástica: "Deus está morto", Nietzsche implode esse princípio de transcendência, de "além-mundo" redimencionando-nos de maneira nova no nosso cômodo habitat.

Esse percurso todo foi feito aqui para demonstrar o problema e as implicações de se buscar a Verdade de forma absoluta sendo que, para nós hoje, como diz Chauí [9], é muito difícil essa busca e mesmo conhecê-la, levando-se em conta que vivemos num mundo que recebe informações de todos os lados por jornais, televisão, internet e etc e acreditamos, na maioria das vezes, que estamos recebendo informações verdadeiras. Mas, para testar a validade da afirmação, seria suficiente, segundo Chauí ainda, que alguém lesse vários jornais, assistisse telejornais diferentes [e] comparando os noticiários diversos, para perceber que as mesmas "não se batem" e que existem "várias verdades".

A verdade, como diz Nietzsche, é um valor e a posse desse valor emana poder em nossa sociedade, como acontece no livro 1984, de George Orwell. O poder vigente - nesta obra - cria a Novilígua em que as palavras que são inventadas estão a favor do estado instituído e destrói outras palavras que poderia fazer a verdade aparecer. Isto é, a posse da verdade e o uso da mentira eram usadas para manter o "status quo" e assim toda a sociedade submissa. Devemos observar e tentar perceber se 1984 é ficção, ou realmente existe, e de que forma a Verdade é usada nesse nosso mundo.




Bom Ócio!



Sofista Minimus.

Post Scriptum: Não é esse o espaço onde farei mas fica aqui tambem a indicação do livro 1984 de George Orwell, pseudônimo de Eric Arthur Blain.


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[1]. Marilena Chauí. Convite à Filosofia. Ed. Ática. São Paulo. 2000. pág. 32.

[2]. Vale lembrar aqui que estou, em parte, desconsiderando uma contenda em vigência na época, a disputa pelo o que viria ser considerado posteriormente como Filosofia, entre Platão e Isócrates, com a vitória do primeiro, que só tomei conhecimento tempos atrás lendo - leitura ainda incompleta - uma brilhante tese de doutoramento de Marcos Sidnei Pagotto-Euzébio intitulada "O Aluno Ideal e o Mestre Perfeito: o Agón entre Platão e Isócrates", defendida na FEUSP.

[3]. Aristóteles. Poética. Cap IV.
[4]. Aristóteles. Poética. Cap IX.
[5]. Manuel Alexandre Júnior. Retórica um saber Interdisciplinar. Pág, 3.
[6]. Idem. Ibidem.
[7]. Alcir Pécora. Máquina dos Gêneros. pág.11.
[8]. Luciana Zaterka. Nietzsche: A Verdade como ficção. pág. 84.
[9]. Marilena Chauí. Convite à Filosofia.