domingo, 1 de março de 2009

Sobre a Verdade.



Não poderia começar esta seção, em que pretendo somar pensamentos gerais, sem abordar o leitmotiv que originou e desenvolveu a arte da filosofia: A Verdade. Poucas vezes atinamos conscientemente para saber o que é ou não verdade, mas sempre atribuimos à noção de verdadeiro ou falso às coisas, situações, relatos e etc. Segundo Marilena Chauí[1], a filosofia surgiu a medida que as narrativas míticas, que tinham a função didática de explicar a "origem de alguma coisa", passaram a ser insuficientes para tanto. Seguindo ainda a autora, essas narrativas eram ouvidas e tidas como verdadeiras pelos ouvintes; efeito causado pelo princípio de autoridade conferida à figura do rapsodo que era quem participou ou presenciou os fatos, ou ainda poderia ser escolhido pelos deuses para a tarefa de contar as histórias. E é nesse cenário que "nasce" a filosofia, com a preocupação - eminentemente platônica - pela busca da Verdade[2]. É essa busca pelo verdadeiro - o real - que fez o filósofo excluir, entre outras coisas, a poesia da sua cidade ideal, n'A República, porque ela é mímese ou imitação [ e em alguns casos de caracteres baixos]. Assim, toda criação presente no mundo - e até o mundo - era uma imitação da natureza verdadeira que existia no mundo das idéias, assim portanto, a poesia que imita essa natureza -que não já é a "Autêntica"- é um simulacro da realidade, falsa ou cópia de segunda mão.

Aristóteles até assume o conceito platônico mas reabilita novamente a poesia, efetivamente, por seu carácter mimético posto que a imitação é propria aos humanos, pois, para ele, adquirimos nossos primeiros conhecimentos ou hábitos imitando [3]. Outro argumento elencado por ele é por a poesia encerrar - e ser - mais filosófica que a História posto que esta trata do particular enquanto aquela trata do universal [4].
Neste ponto é que Aristóteles distancia-se do seu mestre, não só na questão da poesia mas abandonando a busca reta e excessiva da Verdade, aceitando como válida a verossimilhança, isto é, a aparência de verdade. Não é necessário, assim, narrar o que aconteceu de maneira exata - tarefa da História como disciplina - mas sim o acontecimento como provável, como poderia ter acontecido.

Górgias de Leontini, filósofo e professor de Retórica, ao tratar das questões da persuasão, diz que esta deve se ater de qualquer matéria, mas apenas como "doxa" (opinião) já que enquanto opinião pública , a "verdade social" - não a verdade em termos absolutos - "nos escapa" [5]. Segundo Manuel Alexandre Júnior, Górgias afirma que não conhecemos a verdade de maneira direta mas sim:

"uma visão da verdade, uma visão materializada em palavras e não a realidade em si mesma; pois é pela magia da palavra (logos)que pensamos e explicamos a realidade... mas não a realidade objetiva[6]".


A linguagem não é "um veículo neutro ou transparente de representação factual da realidade" como queriam os positivistas [7] e portanto, para Górgias, a filosofia deve abandonar a busca da Verdade absoluta.

Quem tem olhar parecido, mas sob um enfoque diferente é Nietzsche. Para ele "a verdade é um valor" e o homem "procura a verdade num mundo que não se contradiz, não se engana, não muda, um mundo verdadeiro"[8]. Essa afirmação resalta a necessidade que o homem tem de se sentir seguro, que se sentirá realizado "no mundo estável que não se contradiz" [Zakerla] e é o mundo em que estão todos os valores absolutos. Belo, Bom e Verdadeiro residem lá e são garantidos por Deus que com a afirmação bombástica: "Deus está morto", Nietzsche implode esse princípio de transcendência, de "além-mundo" redimencionando-nos de maneira nova no nosso cômodo habitat.

Esse percurso todo foi feito aqui para demonstrar o problema e as implicações de se buscar a Verdade de forma absoluta sendo que, para nós hoje, como diz Chauí [9], é muito difícil essa busca e mesmo conhecê-la, levando-se em conta que vivemos num mundo que recebe informações de todos os lados por jornais, televisão, internet e etc e acreditamos, na maioria das vezes, que estamos recebendo informações verdadeiras. Mas, para testar a validade da afirmação, seria suficiente, segundo Chauí ainda, que alguém lesse vários jornais, assistisse telejornais diferentes [e] comparando os noticiários diversos, para perceber que as mesmas "não se batem" e que existem "várias verdades".

A verdade, como diz Nietzsche, é um valor e a posse desse valor emana poder em nossa sociedade, como acontece no livro 1984, de George Orwell. O poder vigente - nesta obra - cria a Novilígua em que as palavras que são inventadas estão a favor do estado instituído e destrói outras palavras que poderia fazer a verdade aparecer. Isto é, a posse da verdade e o uso da mentira eram usadas para manter o "status quo" e assim toda a sociedade submissa. Devemos observar e tentar perceber se 1984 é ficção, ou realmente existe, e de que forma a Verdade é usada nesse nosso mundo.




Bom Ócio!



Sofista Minimus.

Post Scriptum: Não é esse o espaço onde farei mas fica aqui tambem a indicação do livro 1984 de George Orwell, pseudônimo de Eric Arthur Blain.


______________________
[1]. Marilena Chauí. Convite à Filosofia. Ed. Ática. São Paulo. 2000. pág. 32.

[2]. Vale lembrar aqui que estou, em parte, desconsiderando uma contenda em vigência na época, a disputa pelo o que viria ser considerado posteriormente como Filosofia, entre Platão e Isócrates, com a vitória do primeiro, que só tomei conhecimento tempos atrás lendo - leitura ainda incompleta - uma brilhante tese de doutoramento de Marcos Sidnei Pagotto-Euzébio intitulada "O Aluno Ideal e o Mestre Perfeito: o Agón entre Platão e Isócrates", defendida na FEUSP.

[3]. Aristóteles. Poética. Cap IV.
[4]. Aristóteles. Poética. Cap IX.
[5]. Manuel Alexandre Júnior. Retórica um saber Interdisciplinar. Pág, 3.
[6]. Idem. Ibidem.
[7]. Alcir Pécora. Máquina dos Gêneros. pág.11.
[8]. Luciana Zaterka. Nietzsche: A Verdade como ficção. pág. 84.
[9]. Marilena Chauí. Convite à Filosofia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário