sexta-feira, 20 de março de 2009

Ludus; E Hungria de 1954.




Sim, os jogos/esportes, em geral, farão parte da minha paideuma. Principalmente os que primam por virtudes como o senso coletivo, perseverança, obstinação, raça e beleza. Será que alguém aqui desconsideraria o Brasil da Copa de 70, que mesmo composto de estrelas - 5 camisas 10- conseguiu ser um time, no sentido de ter coletividade. Alguém esqueceu o Dream Team original de basquete, alguém esquece a cena de Gabrielle Andersen, maratonista suíça, que na Olimpíada de 1984 chegou extenuada ao final da prova mas não desistiu antes, mesmo sob riscos de vida, porque sabia que era capaz.
Você excluiria Mark Spitz, Larry Bird, Popov, Magic [Paula] Jonhson, Hotência, Borg, Navratilova, Mia Hamm, Sampras, Marta, Woods e etc. Não seriam dignas de exemplo às carreiras de Senna, Jordan, Ali e Pelé?. Quem não se assombrou e se encantou com o talento e beleza de Nádia Comaneci, que na experiência dos seus 14 anos, executou movimentos de rara perfeição, como se estes fossem rotineiros - e eram para ela!- e depois de arrebatar todo o mundo surpreendeu todos após perguntarem a esta o que ela queria, depois de ganhar o primeiro 10 da ginástica, ela simplesmente respondeu: "uma bicicleta".
Vejam uma dessas provas notas 10 da Nádia:

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[Detalhe: No placar apareceu 1.00 pois ele não fora programado para registrar a nota 10].

Portanto, o esporte além entretenimento, é fonte de conhecimento posto que apresenta exemplos humanos [por mais que alguns exemplos citados aqui parecerem estar acima dessa condição].
Justificada sua existência nesse espaço, vamos ao primeiro escolhido, que além de ilustrar algumas características já aludidas aqui, exemplifica, ao contrário do que possa parecer com a descrição acima, que as artes - considero os esportes também - não são alheias à vida, elas são a vida em toda as suas contradições e poeticidade.
Falarei da Seleção de Ouro da Hungria que durante o seu período vitorioso sofreu com várias guerras e um perídio sobre o regime ditatorial estalinista que desfacelou esta seleção no Levante de 1956. A história da seleção húngara se confunde com a daquele que é o principal astro dela, Ferenc Puskas, o menino de ouro da seleção de ouro, e com a da equipe-base da seleção o Kispest posteriormente rebatizado como Honved "Os defensores da Pátria".



A história de Puskas se relaciona com a configuração do Kispest/Honved, onde seu pai foi seu técnico, e que fazia – o clube - parte dos projetos do regime de recrutar promissores jogadores no que seria o embrião da seleção, alguns outros jogadores, majoritariamente reservas, jogariam no Ferencváros ou o MTK, tudo sob a supervisão de Gustav Sebes, técnico. Mais do que servir ao projeto do governo, eles formaram uma equipe/seleção de especial noção coletiva, jogadores que se conheciam desde os 3 anos - Puskas e Bozsik- moravam a poucos metros do estádio e conviveram, por algum tempo, com talentosos jogadores da geração anterior, que foram vice-campeões da Copa de 38 liderados por Sarosi, como Deri e Nemes, e além disso se aperfeiçoaram com métodos modernos de preparação e outros pouco ortodoxos [1]. A partir de 1948, Gustav Sebes ficou responsável direto pela seleção - era também representante do Ministério dos Esportes e dirigia o Comitê Olímpico Húngaro - e um dos responsáveis diretos pelo Kispest se tornar o Honved, o time do exército. A escolha natural seria o Ferencváros, mais popular no país, mas este tinha um passado ligado à associações fascistas e nacionalistas e inclusive um líder fascista em sua diretoria, o que estava totalmente em desacordo com o regime comunista.


Aos poucos Sebes foi recrutando os jogadores para o Honved; primeiro Lorant, zagueiro Central, Czibor, ponta-esquerda, Kocsis, centroavante, e o ponta-direita Budai, depois vieram o goleiro Grosics e o zagueiro pela esquerda Lantos. O Técnico junto com estes jogadores, assim como outros companheiros de seleção: Buzanszky, Zakarias e Hidegkuti, revolucionaram o futebol. Inspirados em sistemas táticos como o WM e técnicos como Hugo Meisl, que curiosamente criou o ferrolho defensivo na Áustria, Victorio Pozzo e Herbet Chapmam - que Sebes era fã, desenvolveram o 4-2-4, o sistema do centroavante recuado, que fou introduzido com muito sucesso no Brasil, posteriormente pelo técnico húngaro Bella Guttmann, que já havia treinado o Honved.




O 4-2-4 e a formação húngara.





Esta seleção entre 1950 e 56 perdeu apenas um jogo, o da final da Copa de 1954, que foi o seu jogo mais importante, mas conquistou o título Olímpico de 1952 que até hoje é inédito para o Brasil, sem contar com uma vitória em Wembley, contra a toda poderosa Inglaterra, por 6 a 3 entre outras conquistas mais.



Basta dizer, por enquanto, que a história dessa maginífica equipe é construída por vitórias, guerras e derrotas assim como a vida, mesmo que, por vezes, com toques menos ou mais dramáticos. Mas já falei muito sobre esa seleção, se quiserem saber mais - espero que sim!- leiam: "Puskas: uma lenda do futebol" escrito por Rogan Taylor e Klara Jamrich, editora DBA, São Paulo, 1998.

Deste livro retirei a maioria das informações aqui expostas. Ele aborda ainda todo este período; início, auge, derrota dessa geração na Copa de 54 e sofrimentos da guerra que acabou com esta Seleção de Ouro, mas a derrota e a guerra não acabaram com a carreira destes jogadores, pois alguns como Puskas, Hidekguti, Czibor e Kocsis tiveram grande êxito depois em grandes times como o Real Madrid, Fiorentina e Barcelona - os dois últimos.



Boa Leitura!



Vejam, logo abaixo, um vídeo com lances da vitória desta seleção sobre o Brasil [de Djalma Santos, Nílton Santos, Bauer, Julinho Botelho, Didi, Baltazar e etc!] por 4 a 2.

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Tenham um bom jogo!



Sofista Minimus.




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[1]. Os métodos "pouco ortodóxos" incluem apostar corrida contra os meios de transporte público da cidade, que Puskas e Bozsik faziam para melhorar o condicionamento físico e economizar dinheiro.




3 comentários:

  1. Caro blogueiro,

    que ótimo post. Tratou de quase todos meus ídolos no esporte, das seleções brasileira e húngara de futebol ao Dream Team'92 (assisto e reassisto sempre as imagens destas constelações).

    As visitas por aqui têm sido produtivas.
    Grande abraço.

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  2. Renan,

    É verdade. Sempre que posso assisto e re-assisto estas seleções. Recentemente comecei a "garimpar" todos os jogos do Dream Team'92. Estou à procura da partida final agora.

    Obrigado pela visita.

    Abraço,

    Sofista.

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  3. Muito interessante o blog, parabéns! Tratar o esporte (no caso, o futebol) como uma forma de arte é louvável!

    Abraço!

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